Diante da anatomia das ideias havia uma coragem magnifica, e na vida real eram todos contemplativos, melancolicos e timidos. E tu sabes qual era o grande espirito, hoje longe de nós, que explicava Proudhon com a serena familiaridade dos sabios, e nas aulas, dizia, com voz timida, referindo-se aos jurisconsultos antigos: «... O snr. Pegas... S. S.ᵃ o digno Paiva e Pona... O nobre cavalheiro Cujacio..., etc.» Tremia diante d'aquelles commentadores, como diante de idolos mysteriosos; e imaginava abrandal-os, dando-lhes venerações.

Tal era aquelle concilio. A força severa do espirito precisa d'estas precursoras explosões de vida. Hoje pouco resta d'esses camaradas. Separados ou distantes, todavia, sempre que um levanta o braço, reunem-se todos em volta, como os huguenotes em redor do penacho de Henrique IV.

Todos se perderam. Uns estão bem longe, para além do mar. Outros soffrem os tedios da vida official. Outros vivem nas castas serenidades do lar. Outros apodrecem debaixo da herva, e o que nós amavamos n'elles—a alma—dissipou-se, e o que viamos—o corpo—anda em redor de nós, nas metempsichoses, no ar, nas plantas, e nas pedras; mas nós não comprehendemos ainda o seu silencio, como elles já não percebem o nosso ruido!

Ora quem, n'esse tempo, me tivesse fallado dos seculos classicos de Augusto e de Pericles, fazia-me uma injuria pessoal; e hoje em presença d'esta doença desoladora dos espiritos, d'estas chagas luminosas e incuraveis que as almas teem, eu estou quasi prompto a ir declarar, com a vela na mão, como os antigos convertidos, que o pensamento tem tido apenas tres epochas: Pericles, Augusto e Luiz XIV. É o cyclo dos tres tyrannos! E, embora se lastime que as ideias nasçam com os escravos, eu acho magnifico e verdadeiro que aquellas datas gloriosas sejam o jazigo de tudo quanto a alma humana tem creado. Confiteor. Salve, Aristoteles!

Mas o mal é que em volta d'aquellas epochas, que são cimos luminosos, em baixo, crepusculos constellados, move-se uma população selvagem, disforme e revolucionaria. Alli ha o crime, a paixão, a lucta, a dôr, o sangue, o amor, o ciume, a morte e a duvida—todas as meias-tintas do mal! Quem desce d'aquelles cimos, que são gloria, luz, e verdade, onde habitam as almas nobres de Horacio, de La Harpe, de Boileau, de Reis Quita, de Garção, de Caminha, e companhia, quem desce áquelles fundos perversos topa com figuras gigantescas e horriveis: Shakspeare, o humano; Dante, o sobrenatural; Rabelais, o escarnecedor; Isaias, o propheta; Juvenal, o vingador; Eschylo, o fatal. Aquellas figuras devastam!

E é um encontro peor que o da Floresta Mysteriosa, no começo da Divina Comedia. Adeus, as serenidades idyllicas dos tempos de Pericles e de Augusto! Adeus, as claras aguas da alegria nos olhos! Adeus, as tepidas branduras, e os descanços arcadicos!

Aquelles poetas terriveis arrastam-nos, deslumbram-nos d'ideal, esmagam-nos de paixão: dão-nos punhaladas de luz! Tudo arremessam sobre a pobre alma: o amor, a melancolia, a paixão, o ciume, o mysticismo, a ironia, o desespero, a duvida. Além d'isso não respeitam a felicidade corporal do egoismo humano: atrevem-se a dar o terrivel espectaculo da dôr. O rei Lear mostra desapiedadamente os seus olhos arrancados, e o seu coração caido na lama, pisado pelos filhos, cuspido pelos lacaios, apupado pela populaça!

Aquelles poetas abrem na alma longes surprehendentes. Quem os lê sente entrar em si, bruscamente, o infinito!

Soffre, como os sacerdotes antigos soffriam com a presença de Deus!

E entretanto os que se deixaram ficar na luz branca, em companhia dos espiritos inoffensivos de Racine, de Horacio, de Virgilio, de todos os classicos, vivem contente e socegadamente na sua fé ordinaria, na sua virtude, na sua somnolencia hygienica!