É que esses inoffensivos fazem um ruido que embala, põem um abat-jour ao ideal, trazem a paixão açaimada, e põem caio na face da dôr.
Mas os que desceram ás regiões romanticas ficaram com a alma doente, febril, anciada, nostalgica. Ahi está como se explica toda esta geração moderna, contemplativa e doente! Porque—digamos a verdade—hoje a vida do pensamento é um vasto hospital d'almas. E os gemidos, que sáem dos leitos, são os dramas, os poemas, os romances modernos. Hoje, incontestavelmente, pensar é soffrer. A enfermeira, que se chama Democracia, consegue curar a poucos. Os poetas classicos, esses, não obrigam a pensar: são a simplicidade, a frieza, a narrativa, a superficie, a affectação, a convenção—tudo menos a alma, com a sua tragi-comedia de dôres e de duvidas!
Nós, meu amigo, somos uma geração desilludida por tres revoluções, amollecida por uma invenção horrivel—a musica, tomada da duvida religiosa, geração que vê esvaecer-se Christo, a quem tanto tempo amou, e não vê chegar a liberdade, por quem ha bastante tempo espera. Quaes podem ser as obras d'esta geração? Creações febris, convulsões cerebraes, idealistas e doentias, todo um pesadello moral. Por isso temos tido toda a serie de figuras melodramaticas, desde Fausto até Mr. de Camors.
Qual vale mais: esta doença magnifica, ou a saude vulgar e inutil, que se goza no clima tepido que vae desde Racine até Scribe? Eu prefiro corajosamente o hospital, sobretudo quando a primeira febre se chama Julietta e a ultima Margarida!
Os outros, os saudaveis, os doutrinarios da arte, os petrificadores da paixão, os sacerdotes da tradição e do magister dixit, não pertencem á arte pura: pertencem aos archivos. São documentos historicos. São momentos sociaes vistos atravez da arte. Racine explica Luiz XIV. E como na historia livre e pura se não póde conceber Luiz XIV, na arte pura e livre não se póde admittir Racine. Toda a nossa Arcadia explica os reinos de D. João V, de D. José I e de D. Maria I. Por essa litteratura se pódem conhecer todos os sentimentos monarchicos do tempo, o espirito cortezão, a influencia clerical, a sujeição d'ante-camara, as subtilezas moraes, a serenidade emphatica, a magestade theatral, toda essa somma de falsos sentimentos e de falsos costumes que era o antigo regimen. E aquella litteratura falsa, ridicula, sendo excellente como documento, é grotesca como arte.
Na arte só têm importancia os que criam almas, e não os que reproduzem costumes.
A arte é a historia da alma. Queremos vêr o homem—não o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, collocado na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a representação dos caracteres taes quaes elles seriam, abandonados á sua vontade intelligente e livre, sem as peias sociaes. Ahi está o que dá a Shakspeare a supremacia na arte. Foi o maior creador d'almas. Revelou a natureza espontanea: soltou as paixões em liberdade e mostrou a sua livre acção. É ahi que se póde estudar o homem. É o que faz tambem a grandeza de certos typos capitaes de Balzac, o Barão Hulot, Goriot, Graudet. Realisam o seu destino, longe da associação humana, sob a livre logica das paixões.
No emtanto, ás vezes, os que reflectem o seu tempo—criam: e é quando não só revelam o caracter d'um momento, um estado convencional e passageiro, mas traduzem e explicam toda a alma d'um povo. É o que faz a grandeza de João de Barros. Historiador, revelou o genio de Portugal, o espirito aventureiro misturado de exaltação religiosa, o heroismo supersticioso. Camões, o filho da Renascença e das imitações latinas, não tem o espirito epico de João de Barros, que ás vezes, n'uma pagina, constroe toda a antiga alma heroica da patria.
Ultimamente, o espiritualismo entrou na sua phase rhetorica; e os poetas modernos de França, Mallarmé, Dierx, Sully-Prudhomme, Catulle Mendés, Heredia, Ricard, L'Isle-Adam, etc., fabricam maldições ao mundo e á materia, com a mesma sabia reflexão e estudo com que os poetas de 1810 fabricavam madrigaes. Uma certa escola, saída de Charles Baudelaire, affecta amores pelo mal: como os histriões medrosos põem vermelhão na face, para encobrir a pallidez, elles tingem a alma de perversidade negra para encobrir o desfallecimento.
Ha pouco fallei de Mr. de Camors. Ainda um livro nostalgico. Ainda Manfredo e D. Juan sob uma fórma remoçada e theatral.