Mr. de Camors é um mystico. Tem todos os desfallecimentos d'alma, todos os desmaios do desejo dos heroes poeticos de 1830.
Traz só de mais um apparato: o materialismo. Mascara-se de impassibilidade: mas quando? Justamente quando, pela posição politica, pelo resplandecimento financeiro, pela força dos habitos e das ligações, elle tem uma vida compassada e material—em que a alma adormece. E, como a alma adormece, calam-se os seus gemidos. Mas, quando desperta, ou seja pelo amor, ou pela vergonha, ou pela paixão, ou pelo dever, ou pela paternidade, ou pelo remorso, começa logo, a pobre alma, chorando afflicta, torturando-se, e pedindo com as mãos postas ás estrellas um refugio sereno!
Aqui, em Portugal, tambem ha uma grande doença. Fallaria n'isso agora, se não estivesse fatigado de escrever.
Mas a peor das doenças é a doença que affecta ares languidos; que compõe, ao morrer, a voluptuosidade do olhar; que, quando já sente o frio da morte, suspira correctamente: Adeus!
O que significa esta carta desordenada, em que me deixei ir, contra os meus habitos impassivelmente silenciosos, a fallar vagamente em litteratura? Nada, senão que, n'um dia de tristeza e de frio, eu quiz fazer uma romaria saudosa áquelles tempos distantes era que nós viviamos n'uma noite de ideias e de desejos, allumiados pelos astros—Shakspeare, Dante, Rabelais, S. João, Gœthe e Cervantes, e tendo sempre na alma aquella ternura luminosa que vinha d'uma aurora serena, clara, immensa, purificadora e consoladora—Jesus Christo!
Teu
E. de Q.
O LUME
Agora, de inverno, no campo, as noites são asperas e hostis. Toda a natureza está impassivel e entorpecida, esperando a fermentação violenta das seivas. As arvores erguem os braços nús, miseraveis e supplicantes. E as aguas, que no outono estavam quietas e pallidas, e que em maio faziam claras murmurações, tão melodicas como o rythmo d'um idyllio latino, teem agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e lento como um canto catholico d'officios: as chuvas cáem de cima, como escarneos triumphantes e ruidosos.
Ás vezes, vem a lua—não aquella immaculada lua côr d'opala, d'onde se exhala um nevoeiro magnetico que faz a alma docemente doente, mas uma lua metallica, fria e livida, como a face dos corpos finados, nas legendas catholicas.
Então, o homem sente a sua pequenina e inutil alma afundar-se no tedio, silenciosamente, como um navio roto n'uma calmaria, e vae, por instincto, dar-se á intimidade consoladora da lareira, das brazas e do fogo. E, emquanto a força vital se dissolve n'uma somnolencia fluida, elle sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que lhe falla como n'um extase profano: