«Sou eu—diz a voz—eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o teu velho Deus mysterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que ha em ti de grande e de justo—a familia e o trabalho. A minha historia é triste, luminosa e terrivel, immunda e meiga. Eu fui o teu companheiro das noites da India, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch das religiões da velha Africa, ensanguentado e tragico: e sou agora o escravo a quem tu mandas mover as machinas.

«Sempre escondido e silencioso, occupando a um canto o mais pequeno espaço da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas, e fico, nas tuas horas negras de dôr e de miseria, calado ao pé de ti, lambendo-te os pés como um cão. Na India, lembras-te? durante as noites primitivas, eu fui o bom Agni que te allumiava, que espantava os chacaes e as onças, e protegia, como um templo, os teus amores religiosos e simples. Escondia-me nas pedras, e nos paus seccos: assim, para onde tu fôsses, ou solitario ou em bando, encontravas-me sempre aos teus pés, bom e humilde. Foi ao pé de mim que tu creaste a trindade humana da familia.

«Era ao pé de mim que tu descançavas dos teus barbaros trabalhos, no principio, quando a vasta natureza te combatia. E eu era o amigo unico, o alliado radioso. E eu tive a confidencia dos teus primeiros beijos. E eu sabia as tuas dôres e os teus medos.

«Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta tenebrosa, que depois foi para ti berço, lenha, morada, navio, defeza e força, era então a tua sepultura imminente. Quando saías de ao pé de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só, entre os sêres implacaveis—o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudarios. Tudo, sob a pressão doentia do sol, era para ti força inimiga ou fórma resplandecente do mal. E só quando voltavas, encontravas o teu bom lume que te enxugava, que te allumiava, que te dava o pão, a força ou a fé. Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa, ficavamos em casa, esperando os teus cançaços. Ella fiava, limpava o chão da cabana, tirava a agua fresca, e adormecia o filho no seio branco como n'um leito espiritual: eu estava quieto e attento, combatendo a sombra e a noite, vencendo a humidade traiçoeira, fazendo um docel de vida e de luz para o teu somno, dando á cabana a serenidade tepida, e ás tuas fadigas um paraiso de socego, de silencio e de calor.

«Em volta de mim, creou-se a familia. Eu era o purificador da tua natureza. Era o Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os braços, e ampara na hora das dôres.

«Eu tenho ainda por ti aquelle amor servil e adulador, que se glorifica quando abdica, que tem um extase quando se dá a uma humilhação. Quando te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta grande alma de chamma, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes, e cheias de negro—justamente como o corpo d'um amor abandonado.

«Mas quando vens para mim, quando me estendes a mão, como para um affago, quando me revolves—desperto, revivo, canto psalmos de luz, requebro-me como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que são gritos de fogo, scintillações que são beijos; e como n'uma rapariga, para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em rir, em mim, mais infeliz, que não tenho o riso, aurora sonora dos labios, toda a minha dôr e o meu abatimento se vae desfeito em fumo!

«Por ti tenho feito o mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, João Huss, tantos santos, e tantos martyres, e tantos hallucinados de Deus! Fui eu que queimei, nas cidades mysteriosas de Africa, as creanças e as virgens no altar de Moloch.

«Por ti, eu que sou a paz, fui a devastação. Estou fatigado. Durante os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o cão, o confidente, o pão, o calor, a vida! Não queiras que eu seja o carrasco! Podia ir comtigo, insensivelmente—lareira, se era o teu amor que me assoprava, incendio, se era a tua colera—no tempo em que tu eras uma força inconsciente e fatal. Mas hoje és uma consciencia. Comtigo só me alliarei para ser fé, consolação e paz. Sendo paz e fé, é que eu te tenho consolado das servidões dolorosas.