«No tempo das cathedraes, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o pão livre, nem a voz, nem o somno, nem a esperança, eu dei-te o que mais agrada ao escravo—o direito de mandar. Em volta de mim, a familia ajoelhava á tua voz, resava ao teu olhar, erguia a hostia do amor ao teu coração. Eras servo e tinhas estas grandezas: era eu que t'as dava. Como? Pela fé, pela paz, pela consolação, pela união. Para ti, eu tenho representado a essencia humana. Eu tenho advogado a causa da vida.

«A minha irradiação lenta e amorosa dissipou o mysticismo. Eu sou o bem. A familia, o trabalho, a educação, esta trindade mysteriosa da vida, tudo está em mim. Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no circulo da minha luz. Tudo para além é sombra—sombra na parede, e sombra na alma. Procuras o ideal na religião, na conquista, na arte; debalde! Trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida inutil! Os unicos momentos verdadeiros e sãos fôram aquelles em que estiveste ao pé de mim, olhando castamente a mulher, ensinando a lêr a creança. Então realisaste o ideal, o symbolo—Deus, que as religiões esboçam e as criticas dissipam.

«Lembras-te da India?

«Alli tinhas uma cabana, a tua mulher, branca e mais doce que a lã dos novilhos, e o filho, encarnação mysteriosa do amor das almas, e a minha doce presença. Trabalhavas, aquecias-te, amavas, dormias. A alma vivia em ti no estado de presentimento.

«Depois d'isso, tens tido uma vida legendaria de luctas, de creações, de religiões, de conquistas, de descobertas, d'ideaes.

«O que augmentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfallecimento, a dôr e o mal.

«Eras puro e são: estás morbido e enfraquecido. Eras forte: estás rachitico. Eras sereno: estás torturado. O teu bom riso é uma triste ironia: o teu largo olhar é uma aspera desconfiança.

«Tinhas por inimiga a natureza. Vencestel-a? Não. Absorvestel-a. E tudo o que ella tinha de terrivel e de doloroso, tudo hoje tu tens: a independencia desesperada do mar, o mysterio doentio da floresta, o chôro afflicto das aguas, a inquietação do vento, a barbaridade das feras, a escuridão supersticiosa dos astros, tudo hoje está em ti, com surdas irritações, com rebelliões formidaveis. Ahi está. De cada vez que te apartaste de mim, do socego do meu calor, voltaste trazendo uma chaga.

«Foste crear o mysticismo: vieste com a nostalgia incuravel. Quizeste crear os Direitos do Homem: trouxeste um mal divino chamado Liberdade, que vae sempre fugindo de ti, e só ás vezes se volta de repente, para te borrifar de sangue! Quizeste ir construir a adoração do corpo e da materia exclusiva: trouxeste o elemento dissolvente da força e o egoismo brutal. Não tens dado um passo de mais para o bem. As tuas obras ahi estão immensas, accumuladas, contraditorias e inuteis. Tens uma complicação infinita de azas que te impede o vôo.

«A mim, abandonaste-me.