«Eu não me apaguei. Durante as revoluções e as luctas, andei errante, miseravel, sobrecarregado d'infamias, e, para viver, vendendo-me ao carrasco!

«Mas conservei sempre a minha chamma, casta e familiar, para o dia em que quizesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu calor do sangue dos teus irmãos.

«Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus instinctos luminosos, ou sagrados, ou materiaes, ou lascivos. Eu dou-te o pão, o calor, a fortaleza, dou-te as visões que são a poesia do movimento na alma, dou-te a sensualidade somnolenta que exhala amor, dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação, e a força que prepara para o trabalho. Eu sou a cura, intelligente e boa, do mal natural. Eu allumio-te nas vigilias dolorosas. Quando estás entorpecido na doença, eu, pequenino e encolhido, tremo ao pé de ti. Quando morres e a tua alma vae partir, eu allumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco Christo nos altares para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu sou junto das praias o grito de luz que te chama.

«E o que fazes tu em paga d'este amor que se dá, que cria, e que purifica? Esmagas-me. Fazes-me o escravo das machinas. A mim que embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor, movimento que é força: os dois termos da tua vida—pureza e putrefacção! Eu que vivia, allumiava, creava em liberdade, estou encadeado e martyrisado na tarefa brutal das industrias. Fazes-me o motor da miseria. Nas fabricas, as creaturas doentias, as creanças estioladas, as mulheres definhadas e soluçantes são as minhas victimas. Sou o collaborador dos martyrios que lhes infliges. Tu, homem, tomas o fogo, o ser sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salario a infamia. Fazes de mim explosão. Obrigas-me a devastar na guerra!

«Eu sou a pureza, o trabalho, a familia, a paixão casta: levas-me a ser o mal, a viuvez, o pranto e a dôr! Tenho um cortejo d'ambulancias e de macas, eu que era o firmamento dos berços! Não! maldita seja a arvore que consentir em ser forca, e o fogo que consentir em ser explosão!

«Não quero que na minha vegetação de luz haja um orvalho de sangue. Não quero que o vento, ao embalar-me, faça soltar os gritos e os choros que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, sê piedoso e justo. Eu allumio o mais que posso as egrejas, mas parece-me que tu não vês bem a Christo. Não, deixa-me ser a pureza, a graça, a familia, a intimidade casta e o bem. Peço-t'o, rojando-me como um mendigo. Oh homem, oh meu velho camarada das choupanas da India! não me faças ser explosão, morte e devastação, para que eu no dia de pureza e de castidade, quando estiver allumiando e aquecendo os beijos, as orações e os berços—não sinta entre as minhas chammas bailarem espectros!»

MEPHISTOPHELES

No Fausto, de Charles Gounod, a figura dramatica e synthetica é Mephistopheles.

Em volta d'elle, Fausto canta artificialmente como um lyrico histrião d'operas; Margarida sente as primeiras rebelliões nervosas do desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo Cherubim; a alma legendaria do rei de Thule canta na sua torre que molha a espuma do mar; o povo celebra as kermesses, e os judeus dizem a musica da avaresa: mas só Mephistopheles vive! E a sua grande figura angulosa, nervosa, elastica, incisiva, atravessa, sinistra, o drama—os seus lyrismos nostalgicos, as suas sensualidades tristes, os seus mysticismos artificiaes—glorificando a força brutal do dinheiro, escarnecendo as castidades expirantes, empurrando o Fausto espiritualista para a violencia lasciva, combatendo a serena inspiração do Christo, negociando em almas, e abatendo toda a penosa construcção da honra, do dever, do perdão, do amor, da purificação—com o riso tragico do mal!

Aquella opera é uma simples aventura do antigo Diabo.