N'ella, o Fausto não é o sabio que penetrou a medicina, a physica, a logica, a dialectica, a dogmatica, a theologia, a metaphysica, para quem os seis mil annos do passado são apenas o prefacio do saber humano, que procura o X terrivel da equação dos astros, e que ao ruido que faz a sua alma buscando atravez da natureza o Deus fugitivo, o Mysterio, só consegue despertar os dormentes do seu coração, os desejos, os beijos luminosos, e as languidezas silenciosas: não é o homem que se enoja das vasias realidades da vida e da paixão, e que se recolhe n'um stoicismo tragico, tendo todavia, sempre, dentro do peito, o côro soluçante e rebelde dos desejos infinitos e das asperas curiosidades, até que em fim, mais sereno e transfigurado, vae ao fundo do mundo antigo buscar o corpo sublime de Helena e tem d'ella, que é o ideal da fórma antiga, um filho, Euphorion, que é o ideal do espirito moderno.
Não. Na opera, Fausto é simplesmente um d'aquelles ambiciosos grotescos, que contratavam por escripto com o velho Diabo, nos claustros malditos, e lhe compravam a realisação de um desejo, por uma pequena coisa despresivel, menos valiosa que o dinheiro e que os estofos, uma coisa inutil e esteril, que se lhe atirava desabridamente—e que era simplesmente a alma!
As legendas estão cheias d'estas negociações.
Cornelio Agrippa vende a alma pelos segredos da philosophia; o abbade de Tritheim pelo segredo da circulação do sangue; Falstaff vende a alma, n'uma sexta-feira santa, á noite, quando estavam fechadas as tavernas de Londres, por uma garrafa de vinho de Hespanha, e uma perna de capão. Luiz Gaufridi, pelo poder de exaltar nervosamente as mulheres. Um lacaio do Marais, pela felicidade aos dados. Ricardo Dugdale, um namorador do condado de Landshire, por uma lição de dança! Fausto vende desprendidamente a alma, pelo amor vulgar de uma rapariga clara e loura, que tinha um modo celeste de fiar, cantando!
O Diabo cumpria escrupulosamente o contracto: havia para estas negociações uma jurisprudencia dogmatica. Sujeitava-se mesmo a acompanhar o contratador, como uma inspiração visivel, como um camarada de perigos, para lhe facilitar a ampla realisação do desejo. Seguia Agrippa sob a fórma d'um escudeiro, vestido de negro, com o nome de Sujeito. Seguia Fausto, vestido d'escarlate, com o nome de Mephistopheles. Nada mais.
Margarida, não é, na opera de Gounod, como em Gœthe, o symbolo da alma allemã, simples, casta, soffredora, d'aquella alma allemã que, como na Melancolia d'Alberto Dürer, quando a materia, a tyrannia, a desesperança a opprimem, só sabe resignadamente, dobrar as suas azas; aquella alma allemã que exhala toda a sua immensa dôr em frescas cantigas religiosamente humanas, que tem todas as simplicidades, todas as intelligencias, todos os deveres, que quando olha para a terra é para amar, quando olha para o ceu é para orar, quando olha para si é para morrer. Não. A Margarida da musica sabia de Gounod, é uma alma lyrica, nebulosa, nostalgica, sensual, para quem o amor é um magnetismo suave, a oração uma lucta com o mal, a morte um libertamento romantico da vida—insufficiente e vasia. Este Fausto tem na alma um lyrismo theatral, esta Margarida um paraiso artificial.
Mas elle, o bom Mephistopheles, tem uma vida real e poderosa. É elle—a antiga creatura terrivel e grotesca, vaidosa, infame e tragica. É o antigo Satanaz das legendas. É elle—o mesmo a quem os Severios ouviram dizer que antes queria devorar uma alma, do que voltar, entre purificações, para os seus antigos camaradas, os astros, sidera lucida! É elle, o eterno inspirador dos hereticos e dos impostores, elle que ensinava os oraculos aos crocodilos de Arsineë, e aos carvalhos propheticos de Dodona, e que dava a Manés, o homem impio, a ascetica pallidez dos monges, como dá a Fausto, velho e tepido, o resplandecente magnetismo do olhar. Elle, que segundo as tradições judaicas, inventou os enfeitos e as joias, para ferir os castos instinctos da mulher—e que atirava os coraes ao regaço das mulheres de Brabante, como mostra a Margarida a côr traiçoeira e hypocrita das perolas. É elle o mesmo que em Babylonia tomava as attitudes hieraticas de um Deus, e fugia do olhar de Daniel—como na kermesse de Leipzig toma a voz sinistra e rouca do dinheiro, e cáe, torturado e covarde, diante da serena apparição das cruzes das espadas. É elle o antigo Diabo que dava aos monges da Thebaida o mal da acedia, como dá á pobre Margarida o mal do amor. Tortura os monges do Occidente; dá-lhes as chagas e as dores de Job, envolve-os nas visões magnificas do mal.
As virgens diaphanas fazem, no silencio da noite, as mil orações da prostração: os monges passam os annos em jejuns dolorosos. Debalde! Se se deitam na neve, a neve toma um calor vital e lascivo que os definha: se bebem a agua fria e purificadora das fontes, a agua dá-lhes ao corpo a palpitação dos vastos appetites. Se querem resar no silencio, ouvem os risos ambrosiacos dos Deuses sensuaes, e o gemer desfallecido dos bandolins. Tambem a pobre Margarida, se queria fiar castamente, e chorar o velho rei de Thule, sentia a melodia da carne cantar-lhe baixo: «Vê como Fausto, o cavalleiro vestido de velludo, é branco, e bello, e são, e forte.»
Os monges d'Alexandria andavam de noite, pelos corredores solitarios e sonoros, com as cruzes alçadas, cantando, para o afastar, os versiculos do Evangelho, e regando com agua santa as lages do claustro: assim o gentil Siebel asperge, tristemente, as flôres maculadas de maio.
E ao mesmo tempo este Diabo terrivel, que andava disperso nos elementos, de tal sorte que o vento era a sua tosse, elle que era o carrasco da inquisição, a fera dramatica das almas, elle que redigiu a sentença de Christo, que accendeu as fogueiras das feiticeiras, que celebrava o sabbat, onde á luz d'uma lampada sem oleo, prégava o sermão dos sete peccados, elle que tinha por filhos, Merlino, Roberto de Normandia, Attila e os Hunos, era ao mesmo tempo jovial, grotesco, bailarino, poeta, jogador e palhaço. Bebia gloriosamente o vinho das missas do Papa. Tinha uma taverna no Inferno, onde se comiam, com molho de beata, as almas dos usurarios. Dava serenatas ás patricias de Veneza. Fazia sonetos correctos e academicos ás abbadessas de Vecker. Vestia-se de velludos e de sedas, emprestava dinheiro aos estudantes das universidades livres, e assignava-se Belzebuth, cosinheiro do Inferno. Os trovadores cantaram esta legenda faceta das farças de Satan.