Tomou tanta familiaridade com o homem, que Luthero sujou-o de tinta, e Rabelais deu-lhe piparotes. Na Allemanha, na noite de 30 de abril, dava um sarau magnifico nas alturas de Borx-belg. Era a noite do Walpurgis. Havia a grande dança das nudezas. Nas noites claras, as estrellas assistiam, com a impassibilidade de vestaes.

Assim é a figura complexa de Mephistopheles. Durante a opera de Gounod, esta individualidade sinistra deixa escorrer sobre o drama dos amores e dos arrependimentos o seu desprezo resplandecente e ruidoso, como aquellas figuras de Satan, que nas cathedraes da Allemanha deixam cair do ultimo corucheu uma risada de pedra, que nos nichos, nas esculpturas, nas rosaceas, nos fustes, nos baixos-relevos, em todas as figuras de santos, de virgens e de anjos—vae gelar as aspirações ideaes e os sentimentos do ceu.

Toda aquella musica da opera, que envolve Mephistopheles, é a vaga melodia sombria do mal. Tem o escarneo, tem a violencia, tem as trevas, a jovialidade e o medo. Range, ri, treme, devasta, insulta e vence.

MEMORIAS D'UMA FORCA

Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento d'este papel, onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa da sua historia. Esta forca intentava escrever as suas tragicas Memorias. Deviam ser profundos documentos sobre a vida. Arvore, ninguem sabia tão bem o mysterio da natureza; forca, ninguem conhecia melhor o homem. Nenhum tão espontaneo e verdadeiro como o homem que se torce na ponta d'uma corda—a não ser aquelle que lhe carrega sobre os hombros! Infelizmente, a pobre forca apodreceu e morreu.

Entre os apontamentos que deixou, os menos completos são estes que copío—resumo das suas dôres, vaga apparencia de gritos instinctivos. Pudesse ella ter escripto a sua vida complexa, cheia de sangue e de melancolia! É tempo de sabermos, emfim, qual é a opinião que a vasta natureza, montes, arvores e aguas, fazem do homem imperceptivel. Talvez este sentimento me leve ainda algum dia a publicar papeis que guardo avaramente, e que são as Memorias d'um Atomo e os Apontamentos de Viagem d'uma Raiz de Cypreste.


Diz assim o fragmento que eu copío—e que é simplesmente o prologo das Memorias:

«Sou d'uma antiga familia de carvalhos, raça austera e forte—que já na antiguidade deixava caír, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era uma familia hospitaleira e historica: d'ella tinham saído navios para a derrota tenebrosa das Indias, contos de lanças para os hallucinados das Cruzadas, e vigas para os tectos simples e perfumados que abrigaram Savonarola, Espinosa e Luthero. Meu pae, esquecido das altas tradições sonoras e da sua heraldica vegetal, teve uma vida inerte, material e profana. Não respeitava as nobres moraes antigas, nem a ideal tradição religiosa, nem os deveres da historia. Era uma arvore materialista. Tinha sido pervertida pelos encyclopedistas da vegetação. Não tinha fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do sol, da seiva e da agua. Era o grande libertino da floresta pensativa. No verão, em quanto sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol, acolhia os grandes concertos de passaros bohemios, cuspia a chuva sobre o povo curvado e humilde das hervas e das plantas e, de noite, enlaçado pelas heras lascivas, resonava sob o silencio sideral. Quando vinha o inverno, com a passividade animal d'um mendigo, erguia para a impassivel ironia do azul os seus braços magros e supplicantes!

«Por isso nós, os seus filhos, não fômos felizes na vida vegetal. Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços: ramo contemplativo e romantico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa, pelo escarneo, pela farça e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de sol, de poeira, aspero solitario da vida, luctador dos ventos e das neves, forte e trabalhador, foi arrancado d'entre nós, para ir ser taboa d'esquife!—Eu, o mais lastimavel, vim a ser forca!