«Desde pequeno fui triste e compassivo. Tinha grandes intimidades na floresta. Eu só queria o bem, o riso, a dilatação salutar das fibras e das almas. O orvalho de que a noite me banhava, atirava-o a umas pobres violetas, que viviam por baixo de nós, doces raparigas lutuosas, melancolias condensadas e vivas da grande alma silenciosa da vegetação. Agasalhava todos os passaros na vespera dos temporaes. Era eu quem asylava a chuva. Ella vinha, com os cabellos esguedelhados, perseguida, mordida, retalhada pelo vento! Eu abria-lhe as ramagens e as folhas, e escondia-a alli, ao calor da seiva. O vento passava, confundido e imbecil. Então a pobre chuva, que o via longe, assobiando lascivo, deixava-se escorregar silenciosamente pelo tronco, gotta por gotta, para o vento a não perceber, e ia, de rastos, por entre a herva, acolher-se á vasta mãe Agua! Tive por esse tempo uma amisade com um rouxinol, que vinha conversar commigo durante as longas horas constelladas do silencio. O pobre rouxinol tinha uma pena d'amor! Tinha vivido n'um paiz distante, onde os noivados teem mais molles preguiças: lá se enamorára: commigo chorava em suspiros lyricos. E tão mystica pena era que me disseram que o triste, de dôr e desesperança, se deixára caír na agua! Pobre rouxinol! Ninguem tão amante, tão viuvo e tão casto!

«Eu queria proteger todos os que vivem. E quando as raparigas do campo vinham para junto de mim chorar, eu erguia sempre as minhas ramagens, como dedos, para apontar á pobre alma afflicta de lagrimas todos os caminhos do ceu!

«Nunca mais! Nunca mais, verde mocidade distante!

«Emfim, eu tinha de entrar na vida da realidade. Um dia, um d'aquelles homens metallicos que fazem o trafico da vegetação veiu arrancar-me á arvore. Não sabia eu o que me queriam. Deitaram-me sobre um carro e, ao caír da noite, os bois começaram a caminhar, emquanto ao lado um homem cantava no silencio da noite. Eu ia ferido e desfallecido. Via as estrellas com os seus olhares lancinantes e frios. Sentia-me separar da grande floresta. Ouvia o rumor gemente, indefinido e arrastado das arvores. Eram vozes amigas que me chamavam!

«Por cima de mim voavam aves immensas. Eu sentia-me desfallecer, n'um torpor vegetal, como se estivesse sendo dissipado na passividade das coisas. Adormeci. Ao amanhecer, iamos entrando n'uma cidade. As janellas olhavam-me com olhos ensanguentados e cheios d'um sol irado. Eu só conhecia as cidades pelas historias que d'ellas contavam as andorinhas, nos serões sonoros da espessura. Mas como ia deitado e amarrado com cordas, apenas via os fumos e um ar opaco. Ouvia um rumor aspero e desafinado, onde havia soluços, risos, bocejos, e mais o surdo roçar da lama, e o tinido sombrio dos metaes. Eu sentia emfim o cheiro mortal do homem! Fui arremessado para um pateo infecto, onde não havia o azul e o ar. Comecei então a comprehender que uma grande immundicie cobre a alma do homem, porque elle se esconde tanto das vistas do sol!

«Uns homens vieram, que me deram despresivelmente com os pés. Eu estava n'um estado de torpor e de materialidade, que nem sentia as saudades da patria vegetal. Ao outro dia, um homem veiu para mim e deu-me golpes de machado. Não senti mais nada. Quando voltei a mim, ia outra vez amarrado no carro, e pela noite um homem aguilhoava os bois, cantando. Senti lentamente renascer a consciencia e a vitalidade. Parecia-me que eu estava transformado n'uma outra vida organica. Não sentia a magnetica fermentação da seiva, a energia vital dos filamentos e a superficie viva das cascas. Em redor do carro iam outros homens, a pé. Sob a brancura silenciosa e compassiva da lua, tive uma saudade infinita dos campos, do cheiro dos fenos, das aves, das relvas, de toda a grande alma vivificadora de Deus, que se move entre a ramagem. Eu sentia que ia para uma vida real, de serviço e de trabalho. Mas qual? Tinha ouvido fallar das arvores que vão ser lenha, aquecem e criam, e, tomando entre a convivencia do homem a nostalgia de Deus, luctam com os seus braços de chammas para se desprender da terra: essas dissipam-se na augusta transfiguração do fumo, vão ser nuvens, ter a intimidade das estrellas e do azul, viver na serenidade branca e altiva dos immortaes, e sentir os passos de Deus!

«Eu tinha ouvido fallar das que vão ser vigas da casa do homem: essas, felizes e privilegiadas, sentem na penumbra amorosa a doce força dos beijos e dos risos; são amadas, vestidas, lavadas; encostam-se a ellas os corpos dolorosos dos Christos, são os pedestaes da paixão humana, têem a alegria immensa e orgulhosa dos que protegem; e risos das creanças, ais namorados, confidencias, suspiros, elegias da voz, tudo o que lhes faz lembrar as murmurações da agua, o estremecimento das folhas, as cantigas dos ventos—toda essa graça escorre sobre ellas, que já gosaram a luz da materia, como uma immensa e bondosa luz da alma.

«Eu tinha ouvido fallar tambem das arvores de bom destino, que vão ser mastro de navio, sentir o cheiro da maresia e ouvir as legendas do temporal, viajar, vêr, luctar, viver, levadas pelas aguas, atravez do infinito, entre surprezas radiosas—como almas arrancadas do corpo que fazem pela primeira vez a viagem do ceu!

«Que iria eu ser?...—Chegamos. Tive então a visão real do meu destino. Eu ia ser forca!

«Fiquei inerte, dissolvida na afflicção. Ergueram-me. Deixaram-me só, tenebrosa, n'um campo. Tinha, emfim, entrado na realidade pungente da vida. O meu destino era matar. Os homens, cujas mãos andam sempre cheias de cadeias, de cordas e de pregos, tinham vindo aos carvalhos austeros buscar um cumplice! Eu ia ser a eterna companheira das agonias. Presos a mim, iam baloiçar-se os cadaveres, como outr'ora as verdes ramagens orvalhadas!