«Eu ia dar esses negros fructos: os mortos!
«O meu orvalho seria de sangue. Ia escutar para sempre, eu a companheira dos passaros, doces tenores errantes, as agonias soluçantes, os gemidos da suffocação! As almas, ao partir, rasgar-se-iam nos meus pregos. Eu, a arvore do silencio e do mysterio religioso, eu, cheia de augusta alegria orvalhada e dos psalmos sonoros da vida, eu, que Deus conhecia por boa consoladora, havia de mostrar-me ás nuvens, ao vento, aos meus antigos camaradas puros e justos, eu, a arvore viva dos montes, d'intimidade com a podridão, do camaradagem com o carrasco, sustentando alegremente um cadaver pelo pescoço, para os corvos o esfarraparem!
«E isto ia ser! Fiquei hirta o impassivel como nas nossas florestas os lobos, quando se sentem morrer.
«Era a afflicção. Eu via ao longo a cidade coberta de nevoa.
«Veiu o sol. Em roda de mim começou a juntar-se o povo. Depois, atravez d'um desfallecimento, senti o ruido de musicas tristes, o rumor pesado dos batalhões, e os cantos dolentes dos padres. Entre dois cirios, vinha um homem livido. Então, confusamente, como nas apparencias inconsistentes do sonho, senti um estremecimento, uma grande vibração electrica, depois a melodia monstruosa e arrastada do canto catholico dos mortos!
«Voltou-me a consciencia.
«Estava só. O povo dispersava-se e descia para os povoados. Ninguem! A voz dos padres descia lentamente, como a ultima agua d'uma maré. Era ao fim da tarde. Vi. Vi livremente. Vi! Dependurado de mim, hirto, esguio, com a cabeça caída e deslocada, estava o enforcado! Arrepiei-me!
«Eu sentia o frio e a lenta ascensão da podridão. Ia ficar alli, de noite, só, n'aquelle descampado sinistro, tendo nos braços aquelle cadaver! Ninguem!
«O sol ia-se, o sol puro. Onde estava a alma d'aquelle cadaver? Tinha passado já? Tinha-se dissipado na luz, nos vapores, nas vibrações? Eu sentia os passos da triste noite, que vinha. O vento empurrava o cadaver, a corda rangia.
«Eu tremia, n'uma febre vegetal, dilacerante e silenciosa. Não podia ficar alli só. O vento levar-me-ia, atirando-me, aos pedaços, para a antiga patria das folhas. Não. O vento era brando: quasi sómente a respiração da sombra! Tinha vindo então o tempo em que a grande natureza, a natureza religiosa, era abandonada ás féras humanas? Os carvalhos já não eram pois, uma alma? Podiam, com justiça, vir o machado e as cordas buscar os ramos creados pela seiva, pela agua e pelo sol, trabalho suado da natureza, fórma resplandecente da intenção de Deus, e leval-os para as impiedades, para os tablados da forca onde apodrecem as almas, para os esquifes onde apodrecem os corpos? E as ramagens puras, que fôram testemunhas das religiões, já não serviam senão para executar as penalidades humanas? Serviam só para sustentar as cordas, onde os saltimbancos bailam, e os condemnados se torcem? Não podia ser.