«Pesava sobre a natureza uma fatalidade infame. As almas dos mortos, que sabem o segredo e comprehendem a vegetação, achariam grotesco que as arvores, depois de terem sido collocadas por Deus na floresta com os braços estendidos, para abençoar a terra e a agua, fôssem arrastadas para as cidades, e obrigadas, pelo homem, a estender o braço da forca para abençoar os carrascos!

«E depois de sustentarem os ramos de verdura—que são os fios mysteriosos, mergulhados no azul, por onde Deus prende a terra—fôssem sustentar as cordas da forca, que são as fitas infames, por onde o homem se prende á podridão! Não! se as raizes dos cyprestes contassem isto em casa dos mortos—faziam estalar de riso a sepultura!

«Assim fallava eu na solidão. A noite vinha lenta e fatal. O cadaver baloiçava-se ao vento. Comecei a sentir palpitações de azas. Voavam sombras por cima de mim. Eram os corvos. Poisaram. Eu sentia o roçar das suas pennas immundas; afiavam os bicos no meu corpo; penduravam-se, ruidosos, cravando-me as garras.

«Um poisou no cadaver e poz-se a roer-lhe a face! Solucei dentro do mim. Pedi a Deus que me apodrecesse subitamente. Era uma arvore das florestas a quem os ventos fallavam! Servia agora para afiar os bicos dos corvos, e para que os homens dependurassem de mim os cadaveres, como vestidos velhos de carne, esfarrapados! Oh! meu Deus—soluçava eu ainda—eu não quero ser reliquia de tortura: eu alimentava, não quero aniquillar: era a amiga do semeador, não quero ser a alliada do coveiro! Eu não posso e não sei ser a justiça. A vegetação tem uma augusta ignorancia: a ignorancia do sol, do orvalho e dos astros. Os bons, os angelicos, os maus são os mesmos corpos inviolaveis, para a grande natureza sublime e compassiva. Oh meu Deus, liberta-me d'este mal humano tão aguçado e tão grande, que se trespassa a si, atravessa de lado a lado a natureza, e ainda te vae ferir, a ti, no ceu! Oh! Deus, o ceu azul, todas as manhãs, me dava os orvalhos, o calor fecundo, a belleza immaterial e fluida da brancura, a transfiguração pela luz, toda a bondade, toda a graça, toda a saude:—não queiras que, em compensação, eu lhe mostre, ámanhã, ao seu primeiro olhar, este cadaver esfarrapado!

«Mas Deus dormia, entre os seus paraisos de luz. Vivi tres annos n'estas angustias.

«Enforquei um homem—um pensador, um politico, filho do bem e da verdade, alma formosa cheia das fórmas do ideal, combatente da luz. Foi vencido: foi enforcado.

«Enforquei um homem que tinha amado uma mulher e tinha fugido com ella. O seu crime era o amor, que Platão chama mysterio, e Jesus chamou lei. O codigo puniu a fatalidade magnetica da attracção das almas, e corrigiu Deus com a forca!

«Enforquei tambem um ladrão. Este homem era tambem operario. Tinha mulher, filhos, irmãos e mãe. No inverno não teve trabalho, nem lume, nem pão. Tomado d'um desespero nervoso, roubou. Foi enforcado ao sol posto. Os corvos não vieram. O corpo foi para a terra limpo, puro e são. Era um pobre corpo que tinha succumbido por eu o apertar de mais, como a alma tinha succumbido por Deus a alargar e a encher.

«Enforquei vinte. Os corvos conheciam-me. A natureza via a minha dôr intima; não me desprezou: o sol allumiava-me com glorificação, as nuvens vinham arrastar por mim a sua molle nudez, o vento fallava-me e contava a vida da floresta, que eu tinha deixado, a vegetação saudava-me com meigas inclinações da folhagem: Deus mandava-me o orvalho, frescura que promettia o perdão natural.

«Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegetação, que me sentia esfriar, mandou-me os seus vestidos d'hera. Os corvos não voltaram: não voltaram os carrascos. Sentia entrar em mim a antiga serenidade da natureza divina. As efflorescencias, que tinham fugido de mim, deixando-me só no solo aspero, começaram a voltar, a nascer, em roda de mim, como amigas verdes e esperançosas. A natureza parecia consolar-me. Eu sentia chegar a podridão. Um dia de nevoas e de ventos, deixei-me caír tristemente no chão, entre a relva e a humidade, e puz-me silenciosamente a morrer.