«Os musgos e as relvas cobriram-me, e eu comecei a sentir-me dissolver na materia enorme, com uma doçura ineffavel.
«O corpo esfria-me: eu tenho a consciencia da minha transformação lenta de podridão em terra. Vou, vou. Oh terra, adeus! Eu derramo-me já pelas raizes. Os atomos fogem para toda a vasta natureza, para a luz, para a verdura. Mal ouço o rumor humano. Oh antiga Cybele, eu vou escorrer na circulação material do teu corpo! Vejo ainda indistinctamente a apparencia humana, como uma confusão de ideias, de desejos, de desalentos, entre os quaes passam, diaphanamente, bailando, cadaveres! Mal te vejo, oh mal humano! No meio da vasta felicidade diffusa do azul, tu és apenas, como um fio de sangue! As efflorescencias, como vidas esfomeadas, começam a pastar-me! Não é verdade que ainda lá em baixo, no poente, os abutres fazem o inventario do corpo humano? Oh materia, absorve-me! Adeus! para nunca mais, terra infame e augusta! Eu vejo já os astros correrem como lagrimas pela face do ceu. Quem chora assim? Eu sinto-me desfeita na vida formidavel da terra! Oh mundo escuro, de lama e d'oiro, que és um astro no infinito,—adeus! adeus! —deixo-te herdeiro da minha corda pôdre!»
A MORTE DE JESUS
Por estranhos acasos encontrei este velho manuscripto copiado, n'um latim barbaro, do antigo papyros primitivo. Não o traduzo textualmente: seria incomprehensivel, irritaria os nossos habitos criticos, psycologicos! Transporto para a linguagem moderna, complexa, ductil, sabia, o estreito dizer antigo.
Assim ordenado, este documento, que não encerra coisas novas, põe todavia em relevo muitos estados de espirito, muitas situações civis de uma pessoa excepcional, que tem notavelmente merecido n'estes ultimos tempos a attenção da historia e da critica.
Jerusalem, Mediterranean Hotel, no Acra, 1 de Dezembro de 1839.
A MORTE DE JESUS[41]
Dies irae, dies illa...
I
O meu nome é Eliziel, e fui capitão da policia do templo: estou velho e inclinado para a sepultura: e antes de me deitarem para a eternidade sob uma pedra lisa em Josaphat, ou nas mortuarias de Siloeh, quero contar o que sei e o que vi d'um homem excellente, que na minha mocidade esteve, pelos acasos providenciaes da sympathia, intimamente ligado á minha vida. N'estes ultimos tempos, sobretudo, a sua imagem vive activa e poderosa no meu cerebro; e quando, pelo findar da tarde, a esta luz maguada que então habita no ceu da Judea, eu me vou sentar junto ao branco tumulo de Rachel, olhando as muralhas de Jerusalem e a velha Sião, cheia de claridade, e as ruinas de David, é n'elle que penso—e n'esses tempos distantes em que eu tinha a força, a barba escura, o andar agil e firme, e a esperança facil.