Eu sou o mais velho da geração d'esse homem: aqui vivo, afastado da cruel Jerusalem, em Bethlem, junto d'esse poço que tem uma agua tão fresca e consoladora, que David a lamentava no desterro.

Os outros onde estão? Onde estaes vós Thomaz, Matheus, Simão, Pedro, João? Onde estaes vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e socegado no campo de Haceldama; Poncio Pilatos está em Hespanha, retirado e pobre, elle o velho amigo de Tiberio. Antipas, Herodiade, andam na afflicção dos desterros; Hannan morreu, mas a sua memoria e a sua doutrina ainda governam o templo. Onde estão os mais: Nicodemus, Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sabio doutor? Uns estão no valle de Josaphat, outros no valle d'Hinnon, todos esquecidos. Tanto a memoria do homem é como a onda fugitiva e perfida!

É por isso, para que se não perca a lembrança d'aquelle homem justo e bom, que eu procuro dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e comprehendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dôres.

Quando o conheci em Jerusalem, pela festa da Paschoa, era eu moço. A minha vida passava-se toda no templo. O templo, reconstrucção de Herodes o Grande, estava então novo e resplandecente: ainda se trabalhava nos porticos exteriores. Alli era o centro de Jerusalem: alli se orava, se celebrava, se tratavam as questões civis, se julgavam os condemnados, se estabeleciam as escolas rabbinicas da lei, se discutiam os editos de Roma, o procedimento dos legados imperiaes e dos procuradores, se curavam os doentes, se tramavam as sedições. Os romanos não podiam entrar no templo: no atrio da primeira galeria havia inscripções, em grego e em latim, que vedavam aos gentios, aos pagãos e aos samaritanos penetrar além. No emtanto nós viamos sempre os romanos nos terraços da torre Antonia, que domina o recinto do templo, observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra, exercitarem-se em luctas.

A mim, como official da policia do templo, competia-me abrir, fechar as portas, impedir que se entrasse no santuario com bastões ou armas, que se sujassem as lages dos terraços com lama, que se passasse com fardos, ou que viessem orar junto ás columnas do santuario os que estavam tocados de impureza.

Eu era escrupuloso e attento, e desgostava-me (e muitas vezes o disse) que o serviço do culto auctorisasse factos indignos da santidade da lei e da consagração do logar, porque, no recinto do templo, vinham estabelecer-se toda a sorte de vendedores e do bazares: vinham alli vender os animaes para os sacrificios, os estofos, os veus, as faixas de Tyro; trocava-se a moeda; negociava-se o azeite: e, como o templo era o centro vital de Jerusalem, havia alli toda a semelhança de uma feira: pregões, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pagão de Cesarêa, do que o interior da casa de Deus.

Outra coisa me irritava alli, singularmente: eram os phariseus, os escribas, e os doutores da lei; não os estimo: entre elles só vi cerimonias, odios, disputas estereis. Nunca comprehendi o orgulho dos doutores, nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria grega: meu pae cultivava as lettras hellenicas, e tinha-me dado conhecimento d'aquella sciencia, incorrendo assim na ira dos doutores phariseus, que envolvem na mesma maldição o que cria porcos, e o que ensina a seu filho a sciencia grega. Meu pae tinha viajado no Egypto, em Alexandria, e ahi se tinha ligado com um sabio, Philon, judeu pela mãe, grego pela alma, de quem os mestres das synagogas diziam o maior mal.

Desde então tinha-se tomado d'affeição pela sciencia grega, e velho, entretinha-se a fazer passar ao meu espirito as grandes doutrinas d'aquellas gentes. Ora o odio dos escribas pela sciencia hellenica indignava-me. Demais, elles são repulsivos e grosseiros.

Os phariseus, especialmente, são asperos, desdenhosos, maus, respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o espirito da lei. Em tudo cheios d'artificio e de vaidade: se entram na synagoga, querem o melhor logar, o mais largo, e todos os veem batendo no peito sob a amplidão do manto: se vão pela rua ou pelo campo, prostram-se ruidosamente a orar, se veem o olhar do homem: se dão uma esmola, contam-a como virtude, apregoam-a como exemplo: e sempre argumentando, vociferando, enchendo o santuario de disputas e de invectivas! Se, n'uma ceia, algum dos convivas faz a ablução sobre a testa, com a mão toda, em logar de a fazer só com dois dedos, amaldiçoam-n'o, clamam pelas iras de Jehovah e levantam-se escandalisados: nunca ninguem os vê consolar uma viuva, ou ajudar um velho a andar: os pobres, os abandonados, são para elles como os que estão tocados da peste: caminham com os olhos fechados para não vêrem as mulheres, e com os pés nús para se ferirem nas pedras: mas, por baixo do seu zelo, são cheios de appetites, como um homem sanguineo!

Quanto é melhor que estes o alto sacerdocio, que é todo da seita dos sadduceus e dos boethozins! Ha ahi mais sinceridade, e mais humanidade: são homens pacatos e faustuosos, que intrigam com Roma, não teem zelos nem devoções irritantes, amam o socego, as lindas casas de campo junto a Sião ou para além de Bezetha, os molles estofos de Sidon, ou as bellas mulheres da Idumea.