Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vêl-o tornado um logar de commercio, de venda e de troca de moeda. E foi por estes odiosos mercadores do templo, que além d'isso me tornavam a policia difficil e fatigante, que eu conheci o homem ineffavel, por quem os meus olhos ainda se humedecem.

Um dia, entrava eu na galeria de Salomão, que é a que tem tres ordens de columnas, o tecto de cedro lavrado, e olha para o monte das Oliveiras. Era na festa da Paschoa, quando ella se enche com a multidão dos peregrinos. Um soldado da milicia do templo tinha-me dito que, contra os avisos, dois mercadores de pombas e de carneiros tenros tinham-se vindo encruzar nas suas esteiras junto das columnatas, com as rezes enfeitadas de escarlate, e os cestos d'aves brancas. Eu ia, cheio de colera, para os condemnar, quando vi em redor uma confusa gente dominada pelo forte ruido d'uma voz: defronte dos mercadores, havia um homem de pé, que lhes fallava. Era alto, magro, fraco: tinha os cabellos louros, pendentes, separados ao meio, cabellos d'homem da Galilea: mesmo, percebi logo, pelo accento e pela pronuncia, que elle era galileo: n'aquelle momento o seu rosto era irritado e severo: tinha o gesto largo ao modo dos que pregam nas synagogas, tinha as feições inflammadas, os olhos cheios d'uma luz indignada: a sua estatura erguida pela colera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.

Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras, arrastavam as rezes: as pombas esvoaçavam.

—Ide!—disse-lhes elle então—vós fazeis da casa da oração uma caverna de ladrões!

E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das columnas. Elles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma approvação sympathica para o da Galilea: alguns riam: havia creanças assustadas que gritavam. Eu olhava, admirado.

—Quem é este?—perguntei a João, um galileo, que estava junto d'elle, e que eu conhecia de o ter encontrado no atrio da casa d'Hannan.

—Não o conheces tu? É Jesus de Nazareth, propheta da Galilea!

II

Durante a minha vida do templo eu tinha visto muitos videntes, muitos prophetas: vinham da Galilea, da Judea, de todo o paiz que vae até Joppé. Não direi o que penso da intenção prophetica e da crença messianica. Só direi que os prophetas que, no meu tempo, vieram e eram lapidados ás portas de Jerusalem, eram bons; eram uma voz collectiva, a esperança, a consolação e o allivio.

O povo era profundamente infeliz: os saducceus afogados nos seus repousos, os phariseus perdidos nas suas devoções, os escribas e doutores absorvidos nas suas escolas, não viam o estado das almas. Além de tudo estavam longe do povo, n'uma separação desdenhosa e emphatica. Eu estava profundamente ligado ao povo pela raça e pelo instincto. Já na vida estreita e toda commum de Jerusalem, já nas conversações dos atrios do templo, já nas minhas demoras em Bethel, em Ephraim, em Galilea, eu via, comprehendia, sabia o povo. Infeliz, desprezado, eternamente escravo, esmagado pelo tributo da dominação e pelo dizimo, refugiava-se, maltratado da terra, na esperança d'um libertador, d'um Messias. O judeu é dado a preoccupações divinas e a sua verdadeira patria é em Deus.