Uma serie d'homens fortes e piedosos eram os interpretes d'este desejo ideal, eram a voz d'aquella melancholia, e eram os amigos do pobre, os asperos juizes do rico, os consoladores austeros.

O povo, suffocado pela sua paixão interior, sentia-se alliviado, consolado, quando um propheta fallava. Os prophetas confirmavam a vinda do Messias, diziam-lhe a figura e as acções, a piedade e a paixão, esfarrapavam os seus vestidos, iam viver no deserto: d'ahi a exaltação tornava-se um estado natural e humano, as almas cresciam em desejo e vontade. De sorte que todos os annos appareciam videntes e inspirados, que o sanhedrin mandava lapidar á Porta Esterquilinaria. Mas lamentavam-o, porque o povo segue sempre todo o movimento que seja original, amigo do pobre, annunciador da boa nova: Schammaï, Hillel, Jesus de Sirach, que tiveram altos pensamentos de puresa e de justiça, viveram ignorados da Judea e da Galilea porque não pregavam em nome da esperança religiosa, não tinham a paixão messianica. Eram espiritos sabios e justos, e não videntes possuidos de fé.

Ora, n'esse tempo a esperança do Messias era activa. Clamavam por elle a Deus, jejuavam, oravam, para não morrerem antes da vinda d'elle; tinham desalentos, esperavam avidamente os signaes mysticos, e as almas fallavam baixo, porque vinha o Senhor!

Eu mesmo tinha visto muitos prophetas, muitos mestres innovadores; não conhecia João Baptista, que vivia no deserto do Jordão, mas sabia que elle tambem prégava um renascimento, e que, tendo escandalisado a olympica Herodiade, se definhava n'uma prisão de Antipas.

No emtanto nunca nenhum d'esses homens me dera uma sensação feliz como esse Jesus de Nazareth. Os seus olhos cheios de infinito, a sua voz poderosa e serena, a justiça das suas palavras, deixáram-me n'uma vaga e imprevista perturbação, como quando se olha para o ceu, que se suppõe escuro, e de repente se vê uma estrella immortalmente luminosa.

N'essa tarde, como eu caminhasse pela encosta do Sião, para o lado do horto de Salomão, com Simeon, escriba do templo, perguntei-lhe se conhecia Jesus de Nazareth, que prégava na Galilea. Simeon disse-me, com um riso:

—Que sabes tu que possa vir de bom de Nazareth?

Realmente toda a Galilea é muito desprezada pelos de Jerusalem. Fômos conversando n'esta apreciação: Simeon dizia-me que os galileos eram fracos, femininos, imbecis: que eram ignorantes e pouco orthodoxos: que o sangue estava n'elles muito misturado; que tinham muito do samaritanismo; que a sua pronuncia era viciosa; que eram grotescos a fallar, insufficientes a pensar; e que idiotismo galileo era um proverbio de Jerusalem. Eu respondia que a gente de Galilea me parecia simples e dedicada; que quem vive n'uma natureza tão humana, tão cheia de aguas, tão auxiliada das sombras, não podia deixar de ter qualidades finas e harmoniosas; que os galileos eram trabalhadores e sobrios; e que Isaias tinha dito:—«Oh terra de Zabulon e terra de Nephtali, caminho do mar, Galilea dos gentios, o povo que caminhava na sombra viu uma grande luz!»

—Ora, Simeon—dizia eu—estas palavras de Isaias indicam que na Galilea póde nascer um propheta!

Iamos assim largamente conversando, quando chegamos ao horto de Salomão: a natural belleza, as arvores, as vinhas, a perspectiva suave e recolhida dos valles de Jerusalem, a silenciosa espessura, a fresca serenidade, os bandos de pombos que veem beber aos velhos reservatorios de Salomão, fazem d'aquelle logar um retiro bom para espiritos sabios, para aquelles que teem no coração uma ideia, ou que são habitados por uma esperança: alli se reunem assim muitos de Jerusalem! N'aquelle dia andava alli, absorvido, grave e vagaroso, o sabio Gamaliel. Gamaliel era o maior do templo: se os outros eram o poder, a intriga, a riqueza, a tradição—elle era a sciencia; se os outros eram a lei—elle era a justiça. Eu, preoccupado pelo Nazareno, perguntei a Gamaliel se conhecia aquelle homem severo: