—Pelo que sei d'elle—disse Gamaliel—penso que é um justo.
Guardei com amor esta palavra: ella correspondia á attracção suave e piedosa que eu sentia pelo severo mestre da Galilea. Ao voltar a Jerusalem, pensava n'elle: via-o irritado e augusto: imaginei-o cheio da colera do justo e da rebellião do opprimido: o que elle prégava decerto era a condemnação do rico e a humilhação do phariseu. Era o que tu precisavas, Jerusalem, dizia eu, era um propheta amado e seguido, que fôsse a alma d'uma infinita desgraça que se vinga, que erguesse o povo, anniquilasse os sacerdocios corrompidos, expulsasse o romano, que reconstituisse nas almas a velha Israel, nas instituições a velha Judea, que fôsse o homem forte e puro, e o continuador dos Machabeos. Produzira a Galilea esta alma terrivel? Ou será Elias ressuscitado d'entre os mortos? Assim pensava, encaminhando-me pela noite pesada para casa de Hannan.
Hannan era o grande sacerdote, ainda que na realidade e nas coisas do templo o fôsse seu genro Caiphaz; mas elle era o espirito, a direcção, o conselho, a iniciativa de toda a vida sacerdotal do templo. Era velho, sabedor das tradições, astuto; possuia enormes riquezas, conspirava contra Roma, era concentrado e soberbo.
N'um dos largos pateos cobertos de sua casa, em Bezetha, era costume reunirem-se em volta d'um grande fogo, quando o frio entristecia Jerusalem, os officiaes do templo: ás vezes vinham escribas, doutores, sacerdotes affaveis. Aquelle grupo, sempre egual, era como uma consciencia um pouco mordente do templo. Ás vezes, quando não estava algum austero doutor phariseu, pedia-se a um soldado expedicionario que entrasse para junto do lume, dava-se-lhe do vinho de Sidon e das collinas do Libano, e pedia-se-lhe que cantasse algumas das cantigas latinas do bairro de Suburra. Alguns velhos sacerdotes riam nas suas barbas brancas. N'essa noite, quando eu atravessava o atrio d'Hannan, cruzei-me com aquelle galileo, João, que eu tinha visto junto a Jesus de Nazareth, na galeria de Salomão. Elle costumava vir alli vêr uma velha, guardadora dos cães, que era de Capharnaum, na Galilea. Chameio-o, tomei-lhe as mãos, fallei-lhe affavelmente em Jesus de Nazareth: eu, emfim, comprehendia bem aquelle que por um imprevisto interesse, pela elevação da sua palavra, pela belleza do seu aspecto, habitava já no meu peito, como um amigo d'antiga mocidade.
III
João disse-me vagamente todo o passado de Jesus, em palavras simples, mas penetradas de fé e de desejo.
Eu reconstrui então, em espirito, a vida obscura de Jesus: vi-o, pela intuição, em Nazareth, educado por aquella doce paizagem da Galilea, sob a influencia do Carmelo, das serras do Tabor e das terras patriarchaes.
Eu tinha alli viajado, e muitas vezes me tinha sentado n'um rochedo, nas alturas de Nazareth. Se algum logar ha no mundo em que o homem sinta a estreiteza da vida civil, a instabilidade dos interesses, o contingente e fugitivo das affeições e dos desejos, é alli, n'aquelle vasto e socegado horizonte, em que parece que o ceu exerce mais profundamente a sua attracção infinita sobre a alma captiva.
Que pomares, que prados, que humanas aguas, que aldeias delicadamente adormecidas entre as figueiras e as vinhas!
E eu via Jesus, imaginando, esperando, n'aquelle humido paraizo da Galilea e nas suas montanhas queridas, de bellas fórmas amorosas!