Vi-o com os seus primeiros amigos, já possuido da ideia do seu Deus, entrando a fallar nas synagogas, correndo as aldeias, ajudando as pescas, dormindo nos largos terraços sob a luz das estrellas tão bellas, tão expressivas como na velha Chaldea; chamando os que encontrava para que o amassem, acariciando os fracos, e dando-se a si e ao Deus interior que o habitava em alimento ás almas infelizes.

Os de Jerusalem, que nunca saíram das suas estreitas e duras ruas, e apenas teem visto da natureza as suas collinas calvas e os seus valles cheios de mortos, riem quando se lhes falla na natureza do norte, na fecundidade da Samaria e da Galilea e na excellencia d'aquella gente.

Pois, se Jerusalem tem de ser erguida das suas choradas humilhações, será por alguem vindo do lado das aldeias e dos lagos da Galilea! Esta Jerusalem aspera, secca, toda de pedra e de indifferença, só fará espiritos estreitos, phariseus argumentadores, escribas e lapidadores d'homens. O sangue de Judas Galannite, de Hillel, do filho de Sirach, de Gamaliel, de todos os homens justos do nosso tempo, é parente da seiva das arvores da Galilea. Uma elevação ideal sáe d'aquellas sombras e do rumor d'aquellas aguas. Jerusalem será a lei, a auctoridade, a sabedoria, a habilidade, a astucia; mas a Galilea será a virtude e o sacrificio.

Alli não ha cidadãos: ha as pequenas aldeias syrias que eu amo, onde as mulheres teem o seio pacifico, os homens a força serena, e até os pequenos burros teem um olhar doce, em que parece habitar uma resignação humana. Tudo é fecundo, bem cultivado: a abundancia impede a hostilidade ao imposto, a avaresa, a economia aspera, qualidades de Jerusalem. Ah! laminas doiradas do templo, tumulos gregos dos Herodes, com relevos de folhagens, como eu vos dera por um dos pequenos regatos azulados, que dormem e sonham, na espessura amada das cearas de Chorazin! Porque não conheço melhor alegria, do que andar pelas estradas da Galilea: vêem-se os casaes escurecidos pelas sombras das figueiras, das vinhas, os pomares de nogueiras, de romanzeiras estrelladas de vermelho: vae-se n'uma fresca espessura povoada d'aves gloriosas! Quando se está fatigado, senta-se a gente deante d'uma porta, á sombra d'um cedro, bebe-se o vinho de Safed, olham-se as fórmas languidas das montanhas, conversa-se com as mulheres que veem da fonte, todas frescas, cantando os cantos do tempo de Salomão! E não se encontram phariseus, nem escribas, nem sadducceus, nem herodianos!

Era alli que Jesus vivia, fallando pelos campos, pelos casaes e nas synagogas: alli devia ser escutado: não tinha sabios da lei para o contradizer e para o injuriar, e podia-se penetrar do encanto de dizer a verdade aos simples!

O que João me contava da doce vida do lago de Tiberiade enchia-me d'uma affeição ineffavel pelo doce mestre. Eu conheço bem o lago de Tiberiade, todo o paiz de Genezareth: muitas alvoradas andei pelas suas aldeias e pelos caminhos das suas villas! Ai! Magdala, Chorazin, Bethsaida, margens do lago, logares que eu choro, hoje, velho, secco, pallido de saudades pela força do meu peito e pela altura da minha esperança! Ó arvoredos sonoros de Genezareth, todos cortados de agua, onde os meus pés faziam erguer as rolas! Ó caminho estreito do rochedo, cheio de musgos! Ó rio salgado, que nasces ao pé do lago e logo no lago cáes, e que eu tantas vezes comparei ao meu ser fugitivo! Ó margem do lago, cheia de tamarindos, onde a agua, tão azul como os olhos das mulheres de Tyro, vem terminar sem ondas, sem afflicções, nas hervas verde-negras! Ó Galilea, se as ideias moças, que trago mortas dentro do meu peito, as pudesse sepultar fóra de mim, escolheria a tua relva, ó terra de Nephtali!

Jesus e os seus amigos viviam ao pé do lago, da vida de pescadores; aquelle clima é tão doce, tão affavel, que o homem pouco pensa no seu corpo: assim, de dia pescavam, de noite dormiam na areia, sob as estrellas, ao rumor da agua. Jesus pescava, ou fallava n'uma barca, no socegado embalar da agua, aos seus companheiros de rede: assentava-se ás vezes sobre as collinas, que são d'uma viva liberdade d'ar e de luz, e cercado dos simples pescadores, de mulheres, de creanças, prégava-se a si, ensinava o seu coração, fallava das esperanças do reino de Deus. Elle amava tudo o que era delicado, as mulheres, as creanças, os lyrios, as aves: a sua palavra era, assim, tão suave como os olhos das creanças, tão pacifica como o caminhar dos regatos: elle pedia apenas que o amassem, e não tinha razões inflammadas de propheta. Elle era o centro de todo o amor na verde Galilea: dava a esperança ás almas: dizia a vinda do Senhor, o fim das lagrimas, as glorias do pobre.

—O ceu é dos simples—dizia elle.—Os que choram serão consolados; os miseraveis possuirão a terra. Tendes fome e sede de justiça? Vinde a mim: sereis saciados. Sêde pacificos, sêde puros. Se vos perseguirem no reino da terra, abrir-se-vos-á o reino do ceu. Segui-me, segui-me!...

E seguiam-no; abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casaes: as creanças amavam-o: as mulheres iam presas da luz immortal dos seus olhos. Todos queriam errar com elle pelo paiz de Genezareth, comendo os fructos casuaes dos pomares, bebendo como as rezes no fio dos regatos.

Elle explicava Deus de um modo novo: ninguem o conhecia melhor: elle era a consciencia viva de Deus. O seu Deus não era Jehovah, amigo de Israel, inimigo dos homens: não era o ser solitario, tenebroso, irritavel: o seu Deus era o pae, o consolador, o purificador, o eternamente sereno, o eternamente justo.