O Mestre prégava a fraternidade entre os homens, o perdão, a caridade, a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrificio.
—Se vos ferirem, offerecei-vos; se vos odiarem, amae; se vos perseguirem, orae! Que merito ha em amar os que nos amam?
Uma coisa que singularmente me tocava no ensino que João me repetia, era a condemnação dos usos do templo, dos zelos devotos dos phariseus: com effeito, para que são tantas purificações, tantos cilicios, tantos usos de piedade? Para que hão de os phariseus trazer nas suas tunicas as tiras de papyrus, que são o signal da devoção, e para que dão a esmola, de pé, nas escadarias do templo, gritando, e elevando a moeda?
—Quando tu deres a esmola—dizia o Mestre de Nazareth—que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.
E esta palavra enchia-me o coração. E alegrava-me o saber que elle não era como os mais prophetas, não se retirava para o deserto, não se emmagrecia em jejuns, não rasgava os seus vestidos, não se feria nas rochas agudas: vivia como um simples e como um pobre, e se procurava ás vezes os logares retirados, e amava as montanhas, é que ahi estava mais na fraternidade dos seus, e no coração de Deus.
João fallava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joanna, mulher de Khouza, Salomé, Maria de Cleophas e Maria de Magdala, que eu conhecia do Acra, em Jerusalem. Maria de Magdala, ahi e em Tiberiade, tinha tido uma vida apaixonada e impura: uma exaltação inexplicavel era a essencia d'aquelle ser; tinha espasmos, contracções, enthusiasmos perturbados: julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril pelo amor dos homens; ligava-se com os doutores notaveis d'então, penetrava em discussões e explicações da lei, depois andava cercado de phariseus e envolta em devoções: mas tinha o amor dos estofos, e todos os dias chorava. Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo o que fazia era com paixão: a cultura das plantas raras, a creação das moreias em reservatorios, a composição de aromaticos, o estudo das hervas, tudo tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi para Magdala. Ahi viu Jesus, prégando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do Mestre, e amava a sua figura delicada e bella. Tinha, porém, fortes impaciencias, erguia discordias com os discipulos, retirava-se para o deserto. Mas voltava, porque a sua dedicação suave pelo Mestre era maior, e domava a sua tenebrosa e confusa natureza.
Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser á tunica franjas de Tyro.
Jesus, de resto, acceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os publicanos, todos os peccadores.
Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais (dizia eu) aquelle homem que eu vi no templo, com as indignações de Isaias, é pois suave como o ceu da Galilea!? Realmente, uma raça tão humana, tão simples, tão abundante, tão pacifica poderia dar um propheta irritado?
—O Mestre é a propria doçura—dizia-me João.