D'onde vinha então aquella colera, aquelle gesto de Messias vingador?
—Desde quando é elle assim?—perguntava eu a João.
—Dizes bem. O Rabbi mudou desde que chegou a Jerusalem.
IV
Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, emquanto eu seguia para o templo. Ia perturbado, sem centro moral. Ora me vinham desejos de ir á Galilea seguir os passos de Jesus de Nazareth, ora o meu velho orgulho estreito de homem do templo me suscitava hostilidades ou desdens.
O templo abria-se, chegavam os phariseus, os devotos; os doutores approximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras; encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a agua das piscinas, accendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velarios; os pregões annunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam a installar-se as escolas rabbinicas; o oiro tinia nas bancas dos cambiadôres; havia risadas; ouvia-se o balar das rezes.
Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um velho camarada do templo, Josué, que andava ha muito pelas villas de Galilea para a organisação dos sophorins nas synagogas. Era homem conhecedor das tradições e cheio de experiencia da vida sacerdotal. Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazareth, filho de Maria de Caná, e os seus companheiros. Elle era douto, sincero, attento; devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado João, a essencia do Rabbi da Galilea.
Disse-me, com effeito, que vira Jesus na synagoga de Chorasin; que conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado, mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado ás portas de Bethel; que prégava toda a sorte de impiedades; que combatia a lei, a tradição e os textos; que fallava contrariamente á velha sabedoria judaica, sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os sacerdotes, nem os phariseus; que queria distribuir as riquezas pelos pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas; que dormia ao acaso pelos hortos; que não tinha casa nem campo; que se associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções, nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galilea, sem auctoridade entre os doutos e entre os ricos.
Eu ouvia, calado, estas palavras, que eram todo o espirito dos phariseus e dos doutores. E, quando sahi do templo, corri ao atrio d'Hannan.
Jesus de Nazareth era-me já sympathico e intimo, pelo sentimento e pela rasão. Mas o que era aquelle homem? Era um simples visionario? Era um contemplador, cheio da melancholia que dão as espessuras de Galilea, e tomado d'um desdem divino? Era um espirito cheio de sabedoria? Era um continuador de Judas Galannite? Vinha elle prégar contra o imposto e contra o dizimo? Era elle hostil a Cezar, e cheio da tradicção dos Machabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das esperanças messianicas? Vinha elle atacar o espirito do templo?