I

Assistimos, ha muito, a uma travada peleja entre guelfos e gibelinos, quer dizer, entre brancos e negros, entre os homens da claridade e os do entenebrecimento. O que ao principio se assimilhava a uma contenda de Alecrim e Mangerona, contenda em que de um lado pleiteava D. Gilvaz as excellencias d'aquella planta, e do outro D. Fuas proclamava as virtudes d'est'outra, transformou-se no correr dos tempos em uma batalha renhida, a que, por desgraça, não tem faltado as chufas que nada provam, nem os insultos que nada vencem.

Antes das cousas terem chegado a este ponto malfadado, escrevia eu o seguinte:—«Essa polemica litteraria, que de dia para dia cresce, converter-se-ha em verdadeira revolta, e, se eu não me engano, terminará por uma lucta cruenta e decisiva, onde se hão de gladiar os homens do cormentalismo com os austeros contempladores do infinito.»—A prophecia realisou-se finalmente; a liça é já pequena para os contendores que descem a ella, e o ruido das armas perturba o somno e a digestão dos indifferentes.

Deveria eu permanecer no meu retiro obscuro? Deveria{4} contemplar em silencio este duello litterario? Diz-me que não a consciencia. Acima d'estas aggressões pequenas em que tanto uns como outros procuram derribar, quer uma reputação nascente, quer uma gloria já feita, eu vejo a questão da arte, a questão dos principios, a questão das tendencias; questão que é necessario tratar no verdadeiro pé, sem nuvens de rancor que nos obscureçam o espirito.

Póde a chamada escola coimbrã causar á litteratura portugueza os males que a escola marinesca occasionou á italiana? As opiniões divergem, ha terroristas que o affirmam, e ha patriarchas que o contestam. Eu não vejo na seita de Coimbra, tal qual se nos apresenta agora, força bastante para depravar a arte; mas creio ao mesmo tempo que é dever de bom cidadão tomar o passo a qualquer que lhe invade a terra, para que os ignorantes não acclamem o intruso, e em vez de lhe invergarem a tunica do opprobrio, lhe atirem sobre os hombros a purpura dos Cesares. O que hoje é riacho, sem limpidez nem bellesa, póde ámanhã engrossar e converter-se em oceano. Depois, o erro, prégado com boa fé ou sem ella, incute-se e enraiza-se facilmente. Os falsos prophetas medram e florescem sempre. Quando se lhes quer pôr travanco, a plebe furiosa congrega-se, apedreja o indiscreto, e vae mais reverente ainda beijar os pés do milagreiro. É a historia de todos os tempos e de todos os povos. Este cair no abysmo, este fugir da luz para as trevas, este negar a Deus para affirmar a Iblis, eis o que eu temo por agora.

II

Digamos antes do tudo, e sobretudo, uma verdade. A escola de Coimbra existia ha muito, a de Lisboa sabia-o, e nem esta nem aquella se provocavam. Ainda mais. Apparecera entre nós um livro, digno de menção pelos rasgos de talento que ostentava, e ao mesmo tempo digno de censura pelos seus não poucos dislates. Este livro era a Visão dos tempos. A tal apparecimento reuniram-se os magnates,{5} perfilaram-se os admiradores, a critica desbarretou-se, os minoristas da imprensa vieram assaralhopados, e de naveta em punho, botar incenso nos thuribulos, os cirios arderam profusamente em volta d'este Genesis sacrosanto. A devoção dos fieis crescia de ponto; o moço poeta repotreado na sua curul olympica deixava cair sobre as multidões boquiabertas um raio de luz da sua graça. Desde as camaras douradas até ás mansardas obscuras, desde o academico até o noticiarista, desde o rico homem até o pobre-diabo, ninguem via, ninguem pensava, ninguem fallava n'outro livro. Lisboa teve de abrir as suas valvulas de salvação, para não voar em hastilhas n'uma explosão de enthusiasmo. Esta é que é a verdade. Tempos depois Theophilo Braga dava a lume outro poema. Apesar do supremo despreso que a escola de Coimbra parece votar ás frandulagens latinas, esse livro, seja dito entre parenthesis, chamava-se Tempestades sonoras. Tempestatesque sonoras. Os triumphos da vespera cresceram e dilataram-se; os desgraçados trovadores olysiponenses metteram as lyras debaixo do braço, e recolheram-se aos limbos da sua insufficiencia microscopica.

De que veio, pois, todo este reviramento? porque se alçou de repente a guerra? porque é que Troya se esbrazea em chammas? porque se gladiam os que d'antes se abraçavam? porque se entorna o fel sobre esses louros, entretecidos com tanto amor para coroar frontes que hoje se conspurcam? A carta do sr. Castilho escripta a proposito do Poema da Mocidade foi a faúla caída sobre o barril de polvora. A má vontade latente irrompeu furiosa; as labaredas do incendio lamberam todos os diademas.

—«Como farpadas linguas de serpentes»

para me servir de um bello verso do sr. Theophilo Braga. Começou a lide, trocaram-se os primeiros tiros, assestaram-se as bombardas, o padre Tejo levantou-se do seu leito resolvido a arrepellar as barbas do Mondego. Hoje estamos em plena conflagração. De que procedeu, portanto, este alvoroto? De um despeito pueril. A carta do sr. Castilho ferira de rosto o melindre de dois mancebos; estes sairam a campo, e arremeçaram as suas frechas contra o poeta dos Ciumes do Bardo. Havia desacato em proceder de tal modo,{6} havia orgulho em suspeitar que quarenta annos de um lavor litterario que a posteridade tem de aquilatar imparcialmente, podiam cair esphacelados ante as injurias e os apodos. Em torno do poeta juntaram-se, então, de momento, os que o tinham sempre applaudido e respeitado; os arraiaes desfraldaram as suas bandeiras, os fundibularios entraram na faina belligerante. O nome do sr. Castilho foi remechido e fariscado no folhetim e no pamphleto; de uma e de outra banda o insulto gratuito e a frioleira chistosa tomaram o posto de honra. Os que deveriam ter saido, e feito ouvir a sua voz, em nome dos eternos principios de bom senso, quando os horisontes litterarios haviam começado a ennevoar-se, esses tinham acolhido com o Io triumphe nos labios, os que depois buscariam precipitar nas gemonias do despreso. Eu, por mim, não sou coimbrão nem olysiponense, não recebo santo nem senha para vir papear em raso; lamento os desvarios, e tremo pelo decahimento litterario.