Estas disputações de nomes e de pessoas não decidem nem esclarecem. Podia o sr. Castilho, como escriptor, valer tão pouco quanto nol-o affigura o auctor das Odes modernas, que estas nem por isso subiriam nem mais um furo na bitola da boa critica. A questão, por agora, não consiste em dissecar as obras do sr. Castilho, em lhes fazer uma analyse rigorosa, em as submetter a uma stricta chimica-litteraria, para averiguar as dózes de bem e de mal que ellas encerram. A questão reduz-se em saber qual é o pensamento salutar, benefico, grandioso, regenerador e depurativo que vae no lábaro d'estes campeadores famosos; qual o seu mote, o seu ficto, a sua aurora. A questão é saber se o ideal na arte significa apenas um revolutear de bugiarias teutonicas; se a humanidade se ha de redemir sob as aspersões de Vico, ou se consta que a Sciencia nova tenha preparado os melhores cidadãos da republica. A questão é provar que a suavidade, a singelesa, a graça, o lyrismo no verso, devem de ser immolados á duresa, á enfatuação e ao obscurecimento; que um soluço é ridiculo ante o bravejar de um possesso; que as lagrimas de uma creança não valem o phalerno das antisterias; que os anjos teem de cercear as azas para se ensambenitarem de philosophos. Eis o ponto, eis o campo, eis o assumpto em resumo.{7}

Queimae toda essa litteratura aprasivel e deliciosa por onde o coração humano se tem espraiado em lautos seculos; fazei um auto-de-fé á vossa porta, não á similhança do Cura de Cervantes, para desbaste de parvoiçadas e de truanescas phantasmagorias, mas como o de Omar, para testemunho de horror ás boas obras; aquentai-vos em volta d'essa fogueira immensa; e quando das maiores glorias do espirito humano só restar o fumo e a cinza, levantae um altar a todos esses innovadores do subjectivo e da transcendencia, e annunciae a redempção dos povos.

Deixemos a philosophia nos seus recessos de meditação; sigamos a arte nos seus arrobes de enthusiasmo. Para que despir a musa dos seus veos fluctuantes e imprensal-a n'uma garnacha ponderosa? Cumpre accender no coração a chamma dos nobres affectos; cumpre levar ao espirito o fogo das aspiraçães remontadas. O poeta é o sublime enviado do futuro, que vem preparar a geração de hoje para o amanhan grandioso e prospero. Como se hade levantar e moralisar este ignorante enorme que se chama a humanidade? o que entende ella das vossas philosophias? de que lhe servem as vossas saraivadas-germanicas? Cantae-lhe o amor: commovei-a até as lagrimas, impelli-a até o sacrificio.

«Fais ce que tu voudras, qu'importe!
Pourvu que le vrai soit content,
Pourvu que l'alouette sorte
Parfois de ta strophe en chantant;
Pourvu qu'en ton poeme tremble
L'azur réel des claires eaux,
Pourvu que le brin d'herbe y semble
Bon au nid des petits oiseaux!»

Ahi tendes compendiada n'estas duas quadras toda a arte poetica moderna. Não duvidareis de certo da auctoridade do mestre, não o repellireis do vosso gremio. Fazei o que vos aprouver, celebrae na estrophe o que vos agita, eternisae no hymno o que vos inflamma, mas sêde humanos, naturaes, intelligiveis; deixae que vos comprehendam, deixae que nos vossos cantos se perceba uma nota d'esse murmurio inefavel, que principia no fremito da relva e que termina na musica das espheras.{8}

Que novo systema de poesia tendes em mente estatuir? porque caminhos desconhecidos quereis agora levar a arte? qual é a vossa colunma de fogo, é a inspiração ou a simbolica? qual é o vosso modelo, Creuzer ou o Homem? Sacrificae ao povo; descei das abstracções e pousae nas realidades.

Tendes isso por deslustre? pensaes que a poesia desce a certas almas para depois se erguer d'ellas em fragrancias inuteis? Nunca, nunca, nunca. «L'amphore qui refuse d'aller à la fontaine mérite la huée des cruches.»—O poeta é o anjo do bem posto ao serviço da humanidade. Eschylo diz estas palavras: «—Desde todo o principio o poeta servio o homem. Orpheu ensinou o horror do assassinio, Hesiodo a agricultura, o divino Homero o heroismo, e eu, depois de Homero, cantei Patroclo, para que todo o cidadão procure imitar os grandes homens.»—

Affeiçoae ao nosso seculo esta maxima eterna, ensinae aos homens, não as subtilezas que vos prendem, mas o amor que gera a familia e que alimenta a liberdade.

Ahi tendes a missão d'essa deosa de olhos azues e de tranças louras contra a qual vos rebellaes acinte. Em quanto os vossos pensadores cavavam e alqueivavam a grande leira da ontologia, e ao cabo de uma noute perdida em cogitações mysteriosas deixavam cair a fronte calva e extenuada sobre os in-folios obscuros; emquanto elles discutiam o incomprehensivel, e atacavam de frente o desconhecido, á similhança do pagem da ballada que limpava a sombra de um cavallo com a sombra de uma escova; em quanto bracejavam furiosos, procurando rasgar as brumas que lhes encapotavam o espirito; ella, a deosa, a musa do idyllio e da canção amorosa, do rompante bellico e da endeixa suave, ella, a inspiração, o anjo, atravessava o mundo radiante e carinhosa, alentando o fraco, abençoando o innocente, recebendo a prece da orphan para a elevar a Deos entre canticos, amando, padecendo, trabalhando por todos,—fazendo romper o sol da consolação e da esperança do seio do vasto mar das lagrimas humanas!

Perguntae á Grecia antiga o que sabia ella da philosophia eleusiaca? Socrates declarava não perceber Heraclito. Perguntae á propria Alemanha o que julga ella de{9} Herder ou de Schelling; responder-vos-ha pensativa, e como a Carlola de Werther:—«Klopstock!»—