O tempo nos aperta, mas indispensavel é consagrar a esta algumas palavras.
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A obra do Conde de Ficalho é relativamente extensa e volumosa, mórmente consideradas as prisões e distracções da côrte, em que mais ou menos esteve sempre envolvido. E, dada esta circumstancia, mais admira ainda que seja tambem, como realmente é, de tão bom e escrupuloso quilate e de tão primoroso lavor.
No campo restrictamente scientifico, como naturalista, occupou-se inicialmente o Conde de Ficalho do estudo do herbario africano, colhido em missão official do governo portuguez pelo Dr. Welwitsch, herbario pertencente a esta Academia, subsequentemente confiado á Escola Polytechnica, e de que em Londres existe duplicado.
Esse estudo fel-o conjunctamente com o Dr. Hiern, que ultimamente publicou a conclusão dos trabalhos, na qual se encontra repetidas vezes a nota collaborativa do botanico portuguez. E tambem com o mesmo Dr. Hiern publicou em 1881, em inglez, nas Transactions da Sociedade Linneana de Londres (de onde foi vertida para portuguez), a memoria intitulada On central Africa Plants collected by Major Serpa Pinto. Comprehende a nota de 60 especies, das quaes 20 foram descriptas como novas.
Concernente ainda á Africa, produziu em 1884, nos Boletim da Sociedade de Geographia, uma interessante memoria de cerca de 300 paginas, intitulada Plantas uteis da Africa Portugueza, com uma nota descriptiva e historica de 299 especies.
Da Flora Portugueza se occupou tambem, publicando, de 1877 a 1879, no Jornal da Academia, contribuições para a revisão de varias familias de plantas portuguezas do continente, e em 1899, com a collaboração de Pereira Coutinho,{11} nos deu nos Boletins da Sociedade Broteriana, de Coimbra, valioso trabalho sobre as Rosaceas de Portugal, comprehendendo a diagnose de 76 especies, relativas a 26 generos.
Mas o Conde de Ficalho não tinha o temperamento de um simples e frio naturalista. A sua tão completa e esmerada educação abrira-lhe horizontes mais largos, e o seu fundo era irresistivelmente de artista.
Assim, a maior parte da sua obra scientifica assume, não só caracter litterario e philosophico, mas uma perfeição e graça de fórma, que a torna singularmente distincta.
A Memoria sobre a malagueta, apresentada em 1878 á nossa Academia, é no genero um verdadeiro primor, onde se revela vasta leitura, excellentemente exposta, e consideraveis recursos de conhecimentos historicos, geographicos e philologicos. É modelar.