Em 1880 celebrava-se o Centenario de Camões. Ficalho consagrou-lhe tambem uma pequena monographia, que pittorescamente intitulou—Flora dos Luziadas.

É a identificação de todas as especies vegetaes referidas no immortal poema, europêas e exoticas, em numero de 52.

Trabalho essencialmente de erudição e de technica botanica, mas constituindo no conjuncto uma peça litteraria do mais gracioso lavor, nos seus tres capitulos: Flora Poetica—A Ilha dos Amores—Flora Tropical.

A Ilha dos Amores! Existe? Onde? No Atlantico? No Mediterraneo? Nos mares do Oriente?

Faria e Sousa localisou-a na ilha Anchediva. O morgado de Matheus, e outros, na ilha de Santa Helena. Gomes Monteiro na ilha de Zanzibar.

Ficalho dilucida o ponto, tão simples, quanto admiravelmente: a flora da ilha é a flora a um tempo da patria portugueza e a classica flora de Homero, de Virgilio e de Ovidio. Portanto a verdadeira situação geographica da ilha conclue elle... «é na phantasia do poeta; e não está mal collocada».

Ponto interessante tambem, n'esta engenhosa monographia de 100 paginas, é a observação dos abundantes conhecimentos que Camões tinha da flora, como de tudo o mais que ao tempo se sabia, e da precisão, propriedade e justeza com que, dentro do impeccavel metro e da perfeita rima, caracterisava a especie natural a que queria fazer referencia.

Affirmado o seu gosto e competencia para os trabalhos de erudição botanica, Ficalho estava naturalmente indicado para presidir á reedição dos Colloquios dos simples e drogas da India, de Garcia da Orta, deliberada em 1889 pela Academia.

Na India, em Gôa, onde era physico-mór, publicara Garcia da Orta, em 1563, os seus famosos Colloquios, repositorio importantissimo, embora de contextura{12} um pouco pueril na sua fórma dialogada, do conhecimento das plantas e drogas indicas, e constituindo n'esse momento o primeiro documento rigoroso, authentico e scientifico sobre a materia.

Logo em 1567, Carlos de l'Escluse—latinamente Clusius, tendo conhecido em Portugal, onde viera, o tratado do abalisado medico e botanico portuguez, o refundiu e simplificou em latim, e a esta edição se seguiram mais quatro, nos annos de 1574, 1579, 1593 e 1605.