Que revelação esta, e tão inesperada: Ficalho, juntando a tantas outras faculdades a de um enternecimento tão subtilmente communicativo...
Não ha duvida! Debaixo da sua mascara de impassivel homem do mundo havia, como sempre o disseram os seus amigos, um coração, humanissimo malgré lui, de honesta e bondosissima textura, e á piedade filial, dos que dignamente lhe ficam representando o aureolado nome e conservando sua resplendente memoria, será certamente grato observar n'este momento que em seu elogio a Academia não esquece o registo d'esses dotes de sensibilidade, que á saudade são sempre os mais caros.
Não posso alongar-me em considerações sobre a pequena, mas linda obra litteraria de Ficalho, representada no volume de contos a que acabo de fazer referencia, e que se poderia, de certa maneira, pelo seu caracter regional, por, sob o titulo de Novellas do Alemtejo, em parallelo com as Novellas do Minho de Camillo. Mas peço licença aos meus collegas da classe de Lettras d'esta Academia para, em fórma de fecho a este capitulo, summariamente aventar que, a avaliar pelos fulgurantes rastos e signaes que nos deixou, se o Conde de Ficalho se houvesse consagrado á extreme litteratura, n'ella deixaria um nome singularmente assignalado para a gloria das lettras portuguezas.
E é tudo, senhores?
Não. No seu espolio scientifico e litterario, affirma-o o conde de Arnoso no seu bello Elogio, deixou o Conde de Ficalho estudos sobre Correia da Serra,{15} sobre a Flora portugueza, memorias ácerca do Clima de Portugal, das Feculas alimenticias e da Flora fossil, numerosissimas notas historicas, anthropologicas e linguisticas, alguns contos, entre os quaes Cartas do Campo, o Jornal de Fulano, poesias, e até uma peça de theatro.
Mais. Além de escriptor, temos tambem Ficalho—orador, pronunciando o elogio de Antonio Augusto de Aguiar, abrindo o Congresso portuguez de medicina, por occasião do tricentenario do descobrimento do caminho maritimo da India com uma conferencia intitulada O descobrimento do caminho para a India e a Materia medica, dissertando na Sociedade de Agricultura e em outras agremiações intellectuaes.
E temo-lo tambem orador politico, proferindo na Camara dos Pares os seus memoraveis e exhaustivos discursos sobre a invasão do phylloxera e sobre o regimen cerealifero.
Fallava como escrevia, com a mesma correnteza, propriedade e elegancia, e na tribuna tambem o seu distincto porte physico soberanamente o realçava.
E já que á politica fiz referencia, cumpre registar que mais de uma vez foi convidado para ministro. Fontes, Bocage e Hintze Ribeiro debalde insistiram com elle. Recusou sempre, com premeditada e intencional obstinação.
Chega hoje isto quasi a não acreditar-se: ter existido, vivo e palpavel, sem defeito, um portuguez que não queria ser ministro!