É um minusculo specimen do estylo e maneira de Ficalho, mas que bem retrata as suas qualidades de simplicidade, de relevo, de gosto e de alma.

A obra scientifica do Conde de Ficalho accrescenta-se finalmente com a excellente introducção, admiravel quadro da economia rural portugueza, como diz Pereira Coutinho, com que enriqueceu o grosso e compendioso volume, que o governo portuguez enviou á Exposição internacional de Paris, de 1900, com o titulo—Le Portugal au point de vue agricole.

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Na pura litteratura, que nos deixou o Conde de Ficalho?

Escreveu o nosso consocio, o conde de Sabugosa, que elle distinctamente versejava na inspiração acidula de Baudelaire e na dolente cadencia de Musset. Para publico,—além das suas admiraveis Notas ácerca de Serpa e do seu erudito estudo sobre O elemento arabe na linguagem dos pastores alemtejanos, tudo constante de numerosos artigos na Tradição, só veiu, em prosa, um volume de novellas e contos, em 1888.

Mas na sua mesma simplicidade, que primor de concepção, de observação, de analyse, de execução, e que revelação de talento romantico, n'esse delicioso volume, em que se encontram: Uma eleição perdida.—A caçada do malhadeiro.—A maluca d'A dos Corvos.—A pesca do savel.—Os cravos.—Mais uma!

Penitencio-me de só agora os ter lido, esses deliciosos contos a que se não fez reclamo, e é doce penitencia, que a todos que se achem no mesmo peccaminoso caso muito recommendo, para accrescerem de mais um motivo a sua admiração e sympathia pelo Conde de Ficalho.

A leitura d'esses contos, episodios todos referentes á terra alemtejana, com um profundo sabor regional, é um verdadeiro e saudavel goso.{14}

O auctor revela-se, como de prever, naturalista, mas de temperamento e sentimento seu, proprio, e não de escola. Inspira-se, como homem de sciencia, na verdade, mas sem a conhecida predilecção dos corypheus do realismo para os seus aspectos mais ou menos monstruosos e deprimentes, e antes propendente ás conclusões sentimentaes, felizmente não extranhas á natureza humana, e que moralmente a elevam e sublimam.

Na primeira e mais importante das novellas—Uma eleição perdida, no fidalgo Julio d'Azevedo julga-se a principio vêr despontar uma especie de parente de Carlos da Maia, o brilhante e amoral protogonista do famoso romance lisboeta de Eça de Queiroz, mas o desengano vem com commovido aprazimento do leitor. Julio d'Azevedo, coisa menos vulgar na litteratura realista, não é neurasthenico, nem nevrotico, nem degenerado, mesmo superior. A physiologia não se impõe n'elle acima das exigencias da dignidade humana, que prevalecem. Tem sentimentos, tem disciplina moral, e o episodio simples e casto do seu vago e doce enleio com a tão timida e rendida Margarida, a filha do entrevado escrivão Pascoal, o passarinheiro da meninice de Julio, mais de uma vez, pelo seu encanto tão singelo e irresistivelmente sentimental, nos humedece as palpebras.