Começou-se a reparar n'elle. Retezava-se contra o adversario, mas a tristeza invadira-o, e transparecia na fórma de uma maior affectuosidade. O andar tornara-se incerto e mal equilibrado, da espinha o mal subia ao cerebro, e na falla, no olhar, no pensamento, havia preludios timidos e fugazes, mas irrecusaveis e fataes, de incipiente inconsciencia e desvairamento, que a todos infundia a maior tristeza.
Ambulava, articulava, mas já não era o Conde de Ficalho. Estava vivo ainda, mas era peor do que se estivera morto.
Não era elle. Era o seu phantasma, de dolorosa e arripiante visão!
Felizmente para elle, felizmente para todos, o angustioso espectaculo do progressivo desmoronamento d'aquelle privilegiado e scintillante exemplar humano não se prolongou muito. Retido finalmente pelos progressos da doença no seu Palacio dos Caetanos, onde nascera, e onde a filha unica que lhe restava o fôra carinhosamente acompanhar, arrebatado por uma congestão, no dia 19 de abril de 1903 deixava de existir o nosso consocio, e de tão perfeito ser, de tão meritorio homem e de tão brilhante existencia—só restava um despojo material, a accordar mais uma vez para as mundanas meditações os echos da sempre tremenda palavra do Ecclesiastes:
Vanitas, vanitatum et omnia vanitas!...
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Mas será tudo vaidade, meus senhores, na existencia do homem, desde os dons da Natureza, os felizes acasos da Fortuna, até á propria Virtude e Sabedoria, como desoladamente o proclama o desabusado e penitente Salomão?
No ponto de vista individual, considerada a pequenez e fragilidade das mais assignaladas acções terrenas perante a eternidade dos destinos fataes, tudo é vaidade, que se desfaz em pó, cinza, nada, e ao termo da aspera jornada o mais afortunado e glorioso viandante a si mesmo pergunta—Para quê?
Mas não nos elevemos a tão altas conjecturações, não fitemos o Infinito, cogitemos, como academicos, singelamente dentro da esphera dos interesses terrenos, na orbita das benemerencias sociaes.