É tudo vaidade, e do que foi o Conde de Ficalho, só resta realmente uma imagem brilhante, que no seu mesmo brilho com vaidade se confunde?

Não quererieis, illustres collegas, que eu o dissesse, e não o digo.

Do Conde de Ficalho fica a sua obra, em muitos tomos valiosissima e perduravel, e fica, n'um aspecto mais transcendente—um exemplo e uma lição.

Não é licito apoucar em ninguem o merito de por seu esforço se elevar no saber e na consideração, seja a necessidade ou a ambição que o estimulem. O facto é todavia normal, physiologico, e constitue a banal e natural condição do progresso social.

Mas um tal merito sobreleva indiscutivelmente em quem, nascido sem necessidades materiaes, já do berço com logar marcado nas primeiras bancadas da hierarchia social, usufruindo-o por condição de nascimento, esse apanagio o corrobora como que pela conquista, affirmando esforçada e democraticamente meritos proprios, sufficientes para lhe alcançarem, fóra de todo o privilegio, eminente logar na consideração publica.

É bem caracterisadamente este o caso do nosso consocio, o Conde de Ficalho.

O terremoto constitucional de 1834, como terremoto que foi, destruiu ainda mais, do que se edificou. A nobreza soffreu ahi um profundo e talvez excessivo golpe, que a ulterior suppressão completa dos vinculos veiu tambem excessivamente consummar, e d'ahi começou o desmoronamento das grandes e tradicionaes familias, que eram como monumentos da historia de Portugal, pelo esforço de cujo sangue a nação se constituira, se mantivera e engrandecera, e que deviam ser salvaguardadas, como elos preciosos entre o Passado e o Futuro, a affirmarem a continuidade e indissolubilidade da gloria nacional.

Tomadas de surpreza, sem preparo para as competencias da nova ordem social, as classes nobres esmoreceram, e entrincheiraram-se—os que ainda o podiam, n'um altivo orgulho, os outros na desolada, inerte e mortifera contemplação{18} das suas tradições, preferindo depois ao trabalho energico e á lucta porfiada, para que não haviam sido educados, as magnanimas protecções, a que tantos se viram obrigados.

Não comprehenderam o novo mundo, que ante elles, de facto, se abria. Não comprehenderam que as arvores de sua nobre linhagem, em cuja triste e vaidosa contemplação puerilmente se quedavam, eram, na nova ordem de cousas, apenas inefficazes diplomas de grandezas passadas, arvores mortas, emquanto elles, pelo esforço e merito proprio, e no novo criterio das supremacias sociaes, lhes não reverdecessem as folhas e lhes não reinflorassem os ramos.

Alguns raros o attingiram, e o Conde de Ficalho, agora sagrado pela morte e entrado já na posteridade, sem quebra da nobreza do seu nome, antes com summo realce para elle, admiravelmente os symbolisa.