Não ha aqui, senhores, uma soberba lição, um experimental exemplo e um irrecusavel estimulo para que os netos dos que galhardamente combateram pela espada procurem manter a fama dos avós nas competencias modernas do merito intellectual e scientifico, aquelle que hoje em dia todas as portas abre, a todos os logares dá accesso, e em egual consideração chega a confundir e irmanar, nos fastos gloriosos d'uma nação, testas secularmente coroadas, como Luiz XIV, o Rei-Sol, e simples filhos do povo, como Luiz Pasteur, de immortal e benemerita memoria?

A aristocracia moderna, ia quasi dizer a aristocracia democratica, é a da sciencia e das lettras, a do talento. Só esta é universalmente irrecusavel, no tempo e no espaço.

Monarchas e principes não só a veneram, mas n'ella se comprazem em incorporar a magestade de sua alta condição, como tambem n'elles proprios estimam fundar a consagração de meritos pessoaes, que perante o mundo lhes realça a herdada primazia.

Não, a aristocracia intellectual não é incompativel com a do nascimento e da tradição, de que é antes conservadora e engrandecedora. E bem o demonstraram tambem, em exemplo ainda mais subido e frisante, que é da historia, e que á cortezia, e á justiça, é grato aqui recordar, os «altos infantes», que se chamaram—os principes d'Orléans.

Tal é, senhores, a lição que se extrae da vida e obra do Conde de Ficalho, que a Academia hoje glorifica entre os seus mais distinctos ornamentos.

E não destoa ella certamente n'este instituto, fundado em 1780 por D. João{19} Carlos de Bragança, duque de Lafões—qui mores hominem multorum vidit et urbes, e ao qual, com duplo e prestigioso titulo, preside—Quem, por nativo direito investido em tal funcção, por direito scientifico teria egualmente logar aqui, entre os academicos, que pela unica affirmação de algum valor ou esforço proprio conquistaram o seu ingresso n'esta casa.

Disse.

[[1]] Conde de Arnoso.—Elogio do Conde de Ficalho. Lido na sessão especial da Sociedade de Geographia de Lisboa, em 19 de maio de 1903.

[[2]] A Tradição.—Revista mensal de ethnographia portugueza, illustrada. Vol. V, n.os 6, 7 e 8.—Artigos de: Ramalho Ortigão, D. Antonio Xavier Pereira Coutinho, A. R. Gonçalves Vianna, Conde de Sabugosa, Alberto Pimentel, Dr. Theophilo Braga, Dr. Sousa Viterbo, Dr. Candido de Figueiredo, Manuel Ramos, Conde de Arnoso, Dr. Graça Affreixo, Dr. Thomaz de Mello Breyner, D. João da Camara, Pedro A. de Azevedo, Julio de Lemos, Costa Caldas, José Orta Cano, D. Antonio de Mello Breyner, Dr. Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes.