Assim, com Palmella, Terceira, Saldanha, Loulé, terminada a lucta, os Ficalhos, como constitucionaes que eram da vespera, e não de simples adhesão ao triumpho liberal consummado, constituiram o nucleo da nova côrte, onde sempre permaneceram nos mais altos cargos. A torturada mãe, nomeada camareira-mór da infantil rainha, foi feita marqueza e depois duqueza de Ficalho.

Distincta raça esta dos Mellos, que em tantas das suas vergonteas, sem menosprezo de seus pergaminhos, antes de reforço a elles, mostrou comprehender que os homens valem, acima de tudo, pelo seu merito proprio e pelo de suas obras, que não pelo de seus antepassados, que apenas lhes cumpre honrar, e se esforçou em affirmar e desenvolver o valor proprio, em harmonia com o progressivo criterio dos tempos.

Para os quadros d'esta Academia deram os Mellos, em categorias varias, o seu contigente, pois na lista de socios e associados se encontram, além do{6} Conde de Ficalho, os seguintes nomes: Domingos de Mello Breyner; Pedro de Mello Breyner, regente que foi do Reino, constituinte de 1820 e fallecido nas masmoras de S. Julião da Barra; D. Segismundo Caetano Alvares Pereira de Mello, duque de Lafões; Antonio de Mello da Silva Cesar e Menezes, conde de S. Lourenço; Antonio de Mello, marquez de Ficalho. Aos quaes foi tão grato, quanto justo, associar recentemente a titulo effectivo, e como que para que os Mellos aqui tivessem sempre distincta representação, o nome de Antonio Vasco de Mello, conde de Sabugosa.

Como se vê, Francisco de Mello, que nasceu aos 27 dias de julho de 1837, filho do 2.º marquez e 3.º conde de Ficalho e da virtuosa marqueza D. Luiza Braamcamp de Almeida Castello Branco, primaria educadora de seu unico filho, e neto da duqueza de Ficalho, a prisioneira do convento do Grillo, Francisco de Mello, iamos dizendo, veiu a este mundo n'uma condição social, que, junta á independencia de fortuna e a seus sympathicos e brilhantes dotes naturaes, lhe permittia fazer uma agradavel, distincta e facil carreira na côrte e nos centros mundanos e elegantes.

Não desprezou isto, que lhe vinha como patrimonio da natureza e da familia. Mas não se contentou, e desde moço caprichou em ser tambem alguma cousa, por si mesmo, em ser o que foi: «par droit de naissance et par droit de conquéte.»

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Tinha Francisco de Mello 18 annos, quando, concluidos os preparatorios para entrar na Escola Polytechnica,—preparatorios que estudou em Serpa com a unica lição da mãe, do capellão e de um emigrado hespanhol,—ahi se matriculou em 1855. Cinco annos depois havia concluido com singular distincção o seu curso. E com tanta distincção que, tendo-se dado, ainda elle estudante, uma vaga de lente substituto na cadeira de Botanica, pela morte de José Maria Grande, e contando apenas 23 annos, a sua candidatura era acolhida com summo agrado, e, realisado o concurso em 1860, foi elle o preferido por unanimidade de votos, sendo nomeado lente substituto em 3 de janeiro de 1861. A lente proprietario só passou depois, em 27 de janeiro de 1890, pela morte de João de Andrade Corvo.

Conquistada a sua cadeira no alto professorado, podia tambem, como tantos prematuramente fazem, descançar sobre os louros colhidos, e limitar-se depois a arvorar o seu titulo de lente para vaidosa gloriola na côrte.

O sincero culto das coisas intellectuaes manteve-o, porém, sempre, e não só esforçando-se no cumprimento dos deveres escolares, mas preferindo a todos os outros o convivio dos livros e dos homens cultos que honravam o paiz.{7} E foi assim, talvez, que succedeu escolher para esposa D. Josepha de Menezes Brito do Rio, filha de D. Maria Krus Brito do Rio, cujos salões, onde se não dançava, eram ao tempo o grande centro intellectual de Lisboa.

Quem só conheceu o Conde de Ficalho nos ultimos dez ou quinze annos, com mais aspecto de mundano que de estudioso, poderia pensar que elle sempre assim fôra.