Puro engano. Assim se tornara como por uma especie de jubilação, que a si proprio se concedera cerca dos 50 annos. Mas além de que nunca desamparou os livros, e as suas ultimas publicações o demonstram, na sua mocidade fôra muito mais retrahido das mundaneidades, que aliás não estavam tambem tanto na moda como hoje, em que propendem a degenerar n'um assaz generalisado culto de deliquiscente snobismo.

Todavia, ao ser nomeado lente, não deixou de parecer extranho, e talvez espantoso, vêr-se um moço da côrte, filho de marquezes, neto de duques, arvorado professor de uma escola superior, em logar a que só se dedicam os que teem de por tal caminho fazer vida. E d'ahi maliciosos remoques e ironicos sorrisos sobre o caso, tão proprios do nosso galhofeiro meio.

Nasceu assim um dia o ambiguo dito, referente ao novel professor de botanica, segundo o qual dito elle era «lente entre os condes, e conde entre os lentes»! Maneira de se dar a suppôr que não era nem grande conde, nem famoso lente.

A formula na sua simplicidade aphoristica, e na sua contextura symetrica e alternante, não deixa de ser engraçada, e foi durante algum tempo bastante glosada, pelo seu sabor malicioso, ou simplesmente espirituoso.

Em si era absolutamente inexacta e injusta. Isto na parte de que podemos dar testemunho, e quero crer que na outra tambem. E tanto que não fez caminho.

Se entre os condes, o de Ficalho era ou não conde, não tenho qualidade para o dizer, mas no que por alto é conjecturavel, e tanto quanto d'isso é dado a simples academicos prever, é licito suppôr que se elle entre os condes não era conde, era então certamente marquez, senão duque.

Quanto a lente era-o entre os mais distinctos lentes, e não desmerecendo no confronto com elles.

Direi mais: tendo conhecido nas aulas publicas numerosos e abalisados mestres, poucos encontrei tão bem dotados para tão especial mister como o Conde de Ficalho.

Saber é uma cousa, ensinar é outra, embora o saber seja a base essencial de todo o ensino.

Não se pode ensinar sem saber. Mas pode-se saber em absoluto e não se saber ensinar. O ensino não se faz com excesso de erudição ou de criticismo,{8} sob pena de produzir inassimilavel e nocivo enfartamento, ou irresistivel repugnancia, desattenção e tédio.