O melhor professor não é o que propina mais doutrina, é o que na dose, qualidade e fórma a incute mais efficazmente. Saber do seu maior peculio de sciencia extrahir o mais essencial, esse extracto conformal-o n'um molde mais simples para que se torne mais adaptavel, condimental-o, se tanto for necessario, com observações ou exemplificações de caracter tal que tornem o assumpto mais insinuante e proprio a conquistar a attenção e interesse do alumno—sem o quê tudo é perdido—tal é a regra pedagogica fundamental.

A funcção do professor não reside por fórma alguma em ostentar erudição. Ao contrario, ha quasi sempre que fazer o sacrificio de a occultar, para não complicar o thema e o tornar incomprehensivel ou aborrecido, pois a arte do ensino, longe de ser, como alguns inconscientemente praticam, a complicação do simples, para o effeito de exhibir transcendencia, deve ser a simplificação do complicado, por vezes até á substituição das realidades naturaes pelos simples schemas ou formulas.

D'isto tem de compenetrar-se o professor. Mas não basta: importa que tenha em si as qualidades para o pôr em acção, que tenha por natureza, e n'uma palavra—faculdade e dote de insinuação.

Uma expressão nitida, rigorosa e apropriada, que permitia seguir-se com a comprehensão a exposição professoral, é indispensavel, sendo tão improprio e inconveniente o grande jogo da oratoria retumbante e carregada de phrases, como a linguagem confusa, imprecisa e equivoca.

Mas ainda não é tudo. Se a voz é deficiente ou ingrata, se a articulação é imperfeita, se o sobrio gesto que acompanha a palavra a não secunda, se os olhos não fallam com a voz e pela sua scintillação não attraem convergentemente sobre o professor o olhar e com elle o ouvido e a attenção dos alumnos—em grande parte a lição vae perdida.

Ao contrario, por completo é aproveitada se, observadas as regras enunciadas, aos dotes acima preconisados o professor reune condições de sympathia esthetica, de espirituosidade, de correcção moral e de cordialidade de trato, que lhe realcem o prestigio humano e a agradabilidade do contacto.

Tudo isto, senhores, bem o reconheceis, são considerações e previsões que se extraem da simples razão.

E, todavia, o facto é este: dir-se-ia que fomos como que photographar o Conde de Ficalho na sua aula, para d'essa photographia deduzirmos os ideaes preceitos e condições da distincção professoral.

Mas é que o Conde de Ficalho,—o conde entre os lentes,—foi sem sombra de favor o que se pode chamar um professor modelo. Ainda que assaz erudito, não puxava o ensino para transcendencias de erudição, e antes procurava{9} amoldal-o e amaneiral-o á condição dos neophytos da sciencia que professava.

E que lindo quadro o de Ficalho, com a sua garbosa e insinuante figura, na sua cadeira de mestre, deante de si a grande mesa recoberta de matizados exemplares vegetaes, empunhando um na sua tão fina e aristocratica mão, e commentando-o em palavras descançadas, harmoniosas e suaves, tão simples quanto proprias e graciosas, perante o juvenil auditorio!