Eis aqui os titulos pelos quaes essas paginas que adeante vão impressas ainda hoje são muito gratas ao auctor, e o principal motivo porque elle as reedita, concorrendo assim mais uma vez com o seu modesto tributo para a glorificação do portentoso tribuno liberal.
Publicadas pouco depois em opusculo, completamente esgotado e esquecido já, essas paginas, desvaliosas como são e como desvalioso ao tempo era--e ainda hoje é--o seu auctor, nem por isso a dictadura d'então deixou de procurar molestal-o, sob a falsa denuncia official, d'elle haver proferido o seu discurso, se assim se lhe póde chamar, n'um... comicio republicano!
Por esse motivo foi elle chamado a Lisboa á presença do Commandante Geral da Armada,--era assim que então se dizia--o vice-almirante Baptista d'Andrade que, depois de o ouvir, o mandou tranquilla e amavelmente em paz, quando se inteirou de que o «feroz tribuno» para o qual se lhe insinuavam as fulminações das suas reprimendas ou procedimento mais grave ainda, se limitara, no pleno uso do seu direito e sem aggravo da disciplina, a tomar parte n'um sarau litterario-musical promovido por uma commissão de que era presidente o governador civil de Aveiro e ao qual este mesmo presidira, sendo até, por signal, o primeiro a felicitar calorosamente o orador pelo seu discurso, sem duvida impulsionado n'esse acto cortez mais por um requinte de benevola gentileza, do que por quaesquer problematicos meritos oratorios que n'elle vislumbrasse...[1]
Os tempos eram ainda então um pouco diversos dos de hoje, como se vê, e os homens em evidencia nos meios politicos, algo mais toleraveis, em regra, na sua estatura mental e moral do que a grande maioria dos d'agora.
Se até os proprios rapazes das escolas--os do Ultimatum, os d'essa geração academica a que o auctor pertenceu--eram todos mais ou menos como elle, desinteressados, desempennados, enthusiastas, irreverentes, saccudidos por fremitos generosos, susceptiveis dos mais ousados movimentos, como dos mais tresloucados disparates. Se até pensamos muito a serio em organisar um batalhão academico que fôsse expulsar os inglezes do Chinde, começando mesmo a fazer-se uma inscripção especial, que mais ávante não foi pela sensata intervenção do governo... Sem duvida, que eramos todos ingenuamente patriotas e candidamente democratas!
Novos, muito novos que então eramos, seguramente! Mas já tinhamos devorado todos os grandes Romanticos; e, se na nossa alma vibratil encontrara um echo apaixonado a inspirada canção alacre de Mimi, tambem o nosso coração palpitara ardentemente com os êstos inflammados d'Enjolras, soberbo e loiro, juba ao vento, trepando por entre fumo e balas ao alto da barricada...
Novos, muito novos que então eramos, seguramente! Mas conheciamos todo o movimento litterario, scientifico e artistico contemporaneo. Poderiamos ignorar, por ventura, não poucas vezes, as lições estopantes dos compendios da aula; mas o que, com certeza não ignoravamos, eram as mais modernas estrophes de Moréas e Verlaine, toda a obra poetica dos parnasianos, os poemas marmoreos de Leconte de Lisle, e as rimas acirrantes e esplendidas de Baudelaire. Os nomes de Flaubert e dos Goncourt não sahiam das nossas boccas, n'uma encantação perenne; e era com uma anciedade viva, com um fervor religioso, que aguardavamos os volumes mais recentes de Bourget e Daudet e da galeria gigantesca dos Rougon-Macquart. Germinal desabrochara e florira para nós n'um Sinai de fulgurações e assombros...
Novos, muito novos que então eramos, seguramente. Mas entre nós havia, e em não pequena cópia, quem folheasse febrilmente todo o pensamento contemporaneo--os philosophos, os sociologos, os naturalistas... A anthropologia e a prehistoria tinham, nos nossos grupos, ferventes cultores. Fundavamos associações scientificas, como essa que se formou sob a invocação do nome glorioso de Carlos Ribeiro. Tinhamos revistas litterarias e revistas de sciencias; e redigiamos jornaes de combate. Eram da nossa souche--para só fallar dos mortos--poetas como Antonio Nobre, publicistas e ethnographistas como Rocha Peixoto, jornalistas como Hygino de Souza...
Por isso o brusco advento da Republica Brasileira fôra para quasi todos nós uma revelação e uma iniciação, gerando a esperança que nos inspirou e acalentou quando a affronta do ultimatum inglez nos feriu até ao coração e nos pungiu até ás lagrimas e... até á cólera. E vibramos, e protestamos, e actuamos tão intensamente que seduzimos e attrahimos até nós, como guias e como balsões de redempção e luz, poetas e pensadores formidaveis, como Anthero e Junqueiro...
Novos, muito novos que então eramos, seguramente. Mas já as «Farpas» haviam sido a nossa biblia. Com ellas aprenderamos a zombar dos nossos grandes homens que então ainda davam as cartas na sociedade e na politica. Com ellas haviamos lobrigado, dentro dos seus vultos magestosos e imponentes, a estopa misera e ridicula que os enchia e atufava...