O Eça tinha-nos modelado e descoberto já tambem, com a sua subtil arte incomparavel de ironia e belleza, o conselheiro Accacio--esse symbolo!--que nós viamos irreverentemente em toda a parte e em todos os grandes logares, perseguindo-o com a nossa troça implacavel, com a nossa galhofa insultante e cruel--no parlamento, na burocracia, na cathedra e no jornalismo...
Ai de nós! ai de nós! que vamos envelhecendo e que todos pouco mais ou menos então assim fomos, vibrantes e combativos, vivendo no azul dos grandes ideaes, nutrindo-nos, cheios de crença, de todas as espirituaes curiosidades luminosas! Ai de nós! ai de nós! que assim fomos, quando eramos novos, mas que nada tinhamos de mesquinhos e de subservientes, tendo feito da rebellião um culto e da irreverencia uma catapulta! Ai de nós! que, se temos de chorar hoje a nossa mocidade que lá vai, de revivêl-a com os olhos humedecidos d'agua, e--como diz o poeta--
...volver para traz o nosso olhar plangente,
Para traz, para traz, para os tempos remotos,
Tão cheios de canções, tão cheios de embriaguez,
Porque, ai! a juventude é como a flôr do lotus
Que em cem annos floresce apenas uma vez!
ai de nós! que, se assim temos de carpir esses dias cheios, bellos e irradiantes, não temos felizmente de amaldiçoar, n'um arrependimento, os nossos ideaes d'então, as nossas crenças, os nossos odios e mesmo as nossas loucuras. Da sua memoria ainda hoje vivemos, no seu enlevo ainda hoje nos consolamos, a sua saudade ainda hoje nos inspira. Porque, se somos ainda hoje intransigentemente liberaes e firmemente democratas, é porque muito grande foi a nossa esperança e muito vivo o nosso ardor. E ante as gerações que nos succederam, creadas, como ahi se está vendo, precisamente no culto do conselheiro Accacio--o conselheiro Accacio, o nosso supremo odio!--timoratas, respeitadoras, tementes a Deus e á Ordem, genuinas filhas da lei escolar do snr. João Franco e do açambarcamento didactico de Loyola e S. Thomaz, nós, que nos consideravamos tão pequenos já em face das duas gerações egregias que immediatamente nos haviam precedido, forçados somos agora á amarga decepção de termos de nos considerar comparativamente grandes, ao conspecto da miseria que por ahi vai d'uma mocidade de velhos precoces e calculistas, sem alôres, sem norte, sem vertebras, conselheiros in herbis, archeiros por vocação e sachristães ingenitos, irmãos de confrarias e confrades de Ligas conservadoras, deixando-se arrastar até á ignominia suprema de acatarem como mentor um velho beato como o snr. Samodães e de seguirem docilmente, como a um cornáca, ao festejado e festeiro meu caro Lencastre--dos vivas e das viajatas...
Que enorme distancia moral entre 1890 e 1909!
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Mas agora reparo que já vae longa esta prefação, bem mais longa do que minha intenção era ao traçar-lhe as primeiras linhas. Prolixidades e rabujices, sem duvida, de quem começa a envelhecer e que só verdadeiramente ainda sente e vibra, ante a desconsolação do presente, com a emotiva saudade do passado que, a cada dia que foge, mais e mais se afunda no occaso. O leitor benevolo desculpará, porém, o comprehensivel e perdoavel desabafo, tanto mais que, quando os novos hoje se apresentam degenerescentemente velhos, não deve ser d'estranhar que, ao menos por honra do convento, aquelles que já attingiram a altura da vida d'onde começa a avistar-se a declinação do poente, como que se sintam obrigados a lembrar-lhes o quanto e como fôram moços e a mostrar-lhes o quanto ainda de mocidade lhes resta nas bastantes energias.
E a opportunidade do centenario de José Estevão é flagrante para o proposito. D'ahi a resurreição d'esse discurso que adeante se estampa.
Como ha quinze annos, na carta ao dr. Mello Freitas, posso e devo ainda hoje repetir, por minha parte, na actual consagração centenaria de José Estevão e perante o movimento liberal que se define e ella testemunha, o que eu então dizia, concluindo:--«Não defino a minha attitude--confirmo-a».
Porto, 17--XII--1909.