Mas o meu fito, vindo aqui, não foi, como já tive a honra de vol-o dizer, ensinar-vos o que foi o mais illustre dos vossos conterraneos e qual o grande papel que elle desempenhou nos recontros da Liberdade; mas tão só o fazer-vos notar bem nitidamente a responsabilidade historica que a cidade de Aveiro assume n'este momento, commemorando o nome de José Estevão.

Commemorações d'estas, ou são ficticias e cahem de per si no ridiculo e no desprezo do tempo, ou teem, como devem ter, a inspiral-as e a dirigil-as algum superior e elevado pensamento.

A meus olhos é significativo e solemne o momento em que esta commemoração se faz.

Quando ha portuguezes nos desterros de Africa e nas amarguras do exilio que ainda soffrem duramente as consequencias de um corajoso e mal succedido impulso que os levou a romper as fronteiras da legalidade, a qual é muita vez a mordaça do direito; quando o pensamento é apenas tolerado e as liberdades publicas são consideradas como alto favor dos dirigentes; quando, olhando para a tribuna parlamentar, ella se vê deserta e chega mesmo a parecer que ella é morta; quando a reacção clerical vae já, ousadamente, dispondo com espavento as suas forças á plena luz do sol, merecendo até os applausos e as adhesões officiaes; quando a Inglaterra nos enxovalha mais uma vez com o mais cynico desplante; quando a Allemanha entra tambem pelos nossos dominios descurados e ahi se estabelece, d'elles aferrando um largo torrão nas suas garras rapaces; quando a França, rompendo com as suas tradições de cortezia, nos trata duramente e com o pungente desdem de crédor poderoso para com devedores trapaceiros; quando o Brazil, senhores, o Brazil que nós descobrimos, o Brazil a que tantas tradições de gloria, de sangue, de affectividade e de interesses nos prendiam e prendem ainda; o Brazil, ferido na sua hospitalidade, affrontado no seu pundonor, expulsa summariamente dos seus territorios a nossa bandeira; quando tantas calamidades e tantas vergonhas se succedem incessantemente n'um turbilhão mais vertiginoso que o dos mortos no celebre lied allemão; vir commemorar o nome de José Estevão implica fatalmente a indicação para se organisar quanto antes e com a energia das supremas crises o patriotico movimento que nos redima e arranque a esta apathia miseravel em que vamos vegetando.

E não se diga que somos um pequeno paiz, fraco e exposto a soffrer sempre sem protesto os vexames das poderosas nações; como disse José Estevão, «nas nações pequenas não se avalia a sua grandeza senão pela grandeza dos seus ministros; quanto mais pequenos são os seus estados, mais forçoso é que mais importantes, mais honestos, mais dignos sejam os homens que se encontram á frente dos seus negocios.»

É isto que se me offerece dizer agora que se evoca a memoria do soldado da Liberdade, do sublevado de Almeida, do combatente do Vizo. E se isto assim não fôr, senhores, uma coisa só nos resta--morrer de ignominia...

[1] Tratava-se d'uma denuncia enviada ao ministerio da guerra de que então era ministro o snr. Pimentel Pinto e que este communicara ao ministerio da marinha, cujo titular era Ferreira d'Almeida. Quando o auctor d'este opusculo, a esse tempo aspirante a facultativo do ultramar e alumno da Escola Medico-Cirurgica do Porto, se retirava do Commando Geral, foi chamado ao ministerio da marinha onde o chefe do gabinete do ministro, o fallecido Sergio de Souza, então capitão de mar e guerra, lhe communicou, por ordem do mesmo ministro, aquelle facto, mostrando-lhe a respectiva denuncia, cuja assignatura, cautellosamente e como era, aliás, do seu dever, lhe occultou. Por essa occasião felicitou-o tambem em seu nome pessoal e em nome do ministro pelas explicações dadas ao almirante Baptista de Andrade, accrescentando que o ministro não desejava de fórma alguma que se suppozesse ter partido d'elle a iniciativa do procedimento havido.

E não partira, com effeito, como mais tarde o auctor apurou. A denuncia fôra enviada do Porto e o denunciante tinha esporas e galões de official do exercito. Fiquemos por aqui, como castigo bastante, embora generoso, para o villão...

[2] Os drs. Manoel de Arriaga e S. de Magalhães Lima.

[3] O conselheiro J. Dias Ferreira.