«Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir em cada dia um novo sêr.
N'um alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha brotado da terra, e alli permaneceu durante muitissimos annos sempre no mesmo estado.
Um dia porém uma mulher joven e formosissima, tocando lyra e cantando melodiosamente, approximou-se da planta.
Ao vêr um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas o vegetal se sentiu tocado, da extremidade semi secca borbolhou seiva e brotaram petalas macias como a mão que tocou o arbusto e rosadas como as faces da formosa cantora.
Nenhuma flôr na terra pôde depois para o futuro ser comparada em belleza e perfume á deslumbrante rosa que Venus fez nascer».
Angelo de Gubernatis conta-nos da seguinte fórma a lenda da roseira brava:
«A rosa canina passa na Allemanha por sinistra e diabolica.
Müllenhoff ouviu no Schleswig uma lenda em que o diabo, caído do ceu, afim de para alli tornar a subir procurou fazer uma escada com os espinhos da roseira brava.
Deus em castigo do facto condemnou o vegetal a não poder elevar-se mas só ramificar-se para os lados; então, despeitado, o diabo voltou-lhe para o sólo a ponta dos espinhos.
Outros pretendem que a roseira brava, recebeu esta maldição na occasião em que n'ella se enforcou Judas, e é commemorando este facto que ainda hoje chamam aos fructos, Judas-beeren (bagas de judas).
[ACONITO.]
O aconito é conhecido como planta venenosa desde a mais alta antiguidade. Diz uma lenda grega que este veneno nascera no jardim d'Hécate da baba do cão Cerbero, quando Hercules o arrancou da entrada do Averno. O cão, ao contacto com a luz diurna, que pela primeira vez via, sentiu-se fortemente incommodado, expellindo pela negra e suja bocca torrentes de baba, que, ao tocarem o sólo, se transformaram em vegetaes venenosos como o liquido que lhes déra origem.
[APAMARGA.]
Angelo de Gubernatis conta-nos assim a lenda da apamarga (Achyrantes aspera), uma vulgar planta indiana.
Segundo uma lenda do Yagúrveda negro (II, 95), Indra tinha matado Vr'itra e outros demonios, quando encontrou o demonio Namuc'i e luctou com elle; vencido fez as pazes com Namuc'i com a condição de não o matar nunca, nem com corpo sólido, nem com liquido, nem de dia, nem de noite.
Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem liquida, e veio durante a aurora, na occasião em que a noute tinha desapparecido mas o dia ainda não raiára, e feriu com ella o monstro Namuc'i. Da cabeça de Namuc'i nasceu então a herba apamarga, e Indra em seguida, com ajuda d'esta herba, destruiu todos os outros monstros.
[TRIGO.]
Satanaz tinha dado um grande campo a um lavrador com a condição de que metade da colheita seria para elle. N'aquella occasião, e na terra onde o facto se déra, não era conhecida senão a sementeira da batata, que foi a que o lavrador fez. Chegada a epocha da colheita, o diabo veio reclamar o que lhe pertencia, e, dizendo que a metade d'elle era a que estava debaixo da terra, emquanto que a do ar era do lavrador, deixou este só com a rama, sem ter alimento para todo o anno. O pobre do homem ludibriado por Satanaz, lastimava a sua sorte, chorando á beira do caminho que passava por junto do campo, quando appareceu um santo monge que inquirindo a causa do pezar do lavrador, resolveu pregar uma peça ao diabo. Disse ao homem que o acompanhasse e, chegado ao mosteiro a que pertencia, deu-lhe sementes de trigo, ensinando-lhe como se semeava e como d'elle se fabricava pão.