Uma tarde,—havia dias que estava sem comer—orava o fakir fervorosamente pedindo a Siva que se amerciasse d'elle e lhe permitisse antes de morrer a ultima e suprema felicidade de poder vencer o somno, quando começou a sentir-se muito fraco, uma languidez precursora do somno a dominal-o, tudo a dansar-lhe á volta...
Seria fome? Seria somno? Oh, se apasiguando a fome vencesse o somno...
Olhou em roda... alimentos nenhuns; os fieis tinham-se esquecido de lh'os trazer... mas não havia mal... Fóra, perto da gruta, vegetavam variados arbustos, e a alimentação de tantos animaes tambem havia de convir ao homem. Seria mais um sacrificio... E Dakkar arrastando-se com difficuldade, quasi vencido pela necessidade de dormir, chegou até junto d'um vegetal e começou a devorar-lhe as folhas.
Mas, caso milagroso, á medida que ingeria as folhas do vegetal, o somno desapparecia e o fakir sentia-se mais fórte, fresco e vigoroso.
Obrigado oh Siva, exclamou elle jubiloso, agora posso morrer, pois morro feliz visto que graças a ti, alcancei dominar o que até hoje zombara dos meus esforços. Venci o somno!
Começou desde então a fazer colher pelos seus adeptos folhas e folhas do vegetal, que deitava de infusão, e quando o somno fazia sentir os seus primeiros rebates bebia da agua milagrosa e elle desapparecia logo.
O arbusto descoberto pelo fanatico fakir indiano, o vegetal dissipador do somno foi o chá.
[PAPOULA.]
N'aquelles bons tempos em que os deuses desciam á terra a confraternizar com os humanos, vivia nos Alpes um rapaz filho de gente pobre mas que pela sua bondade e pelo carinhoso disvelo com que sabia velar á cabeceira dos doentes era querido e estimado por todos.
Tinha a grande e apreciavel arte de por meio de doces cantares saber adormecer aquelles que eram apoquentados pelas mais terriveis e rebeldes insomnias, de modo que os seus conterraneos lhe não deixavam um momento só de descanso.