A Shakespeare ligaram um espirito—um andador, e a Socrates, outro espirito—o demonio, porque só pela interferencia do sobrehumano lhes admittiam as concepções. Não deve, portanto, causar reparo dizer-se que a mulher tem sido sempre, e sempre será, o espirito familiar do homem. O que elle produz de grande é ella quem lh'o inspira, o que parece ir além das suas forças vem da força que ella irradia. A ingratidão do homem para com a mulher tem sido, porêm, enorme. Não passa sem ella e diz mal d'ella. Da antiguidade ao dia de hoje, os libellos accumulam-se com uma injustiça que apavóra. Euripides põe na boca de Hippolyto as mais flagelladoras apostrophes, que alguma vez contra ella foram proferidas. Affirma que tudo quanto o homem tem de mau vem da mulher e exclama: «Porque—ó deuses immortaes!—não foi dado ao homem o poder de gerar o homem de uma pedra, de um pedaço de ouro, de um tronco de arvore e não de um ventre de mulher?» Aristophanes, por intermedio de Mnesiloco, nas Festas de Céres e de Proserpina, simulando defendê-la, quasi sobreleva Euripides no ataque. Strindberg, nos Casados, accusa-a de só afagar para morder, e no Pae a violencia contra ella mantem-se constante e formidavel, como a de Nietzsche no Assim falava Zarathustra, na Genealogia da Moral e em O Viajante e a Sombra. Quanto mais culto, mais impiedoso, vituperando-a com affrontosas opiniões e algemando-a com as leis por elle proprio fabricadas. Mas nesta terra, eternamente fertilisada pelo vosso pranto e florescida pelo vosso riso—ó querida e boa mulher portugueza!—talvez porque assim o sois, nunca se disse grande mal a vosso respeito, nem a lei foi das mais precárias para vossa defesa. Em Portugal nunca o insulto dos philosophos e dos moralistas vos escalvou a dignidade, nem a lei desceu a vexames, e tambem em nenhum outro paiz, por honra vossa e alegria do nosso lar, a despeito das violencias do instincto, da barbaridade das velhas edades, da convulsão dos usos e costumes, a mulher se conservou tão modesta, tão carinhosa, tão simples e tão casta!

A mulher portugueza da Edade Média era a escrava do homem pelo corpo e de Deus pelo espirito. Vista á luz da moral e do respeito de agora, magôa-nos; mas o homem não a insultava, não lhe batia, não a violava sem a lei lhe tomar contas. Magôa-nos, doe-nos, mas os factores sociaes não lhe permittiam que fosse outra, porque nem ella, nem o seu amor estavam dignificados. Apparece-nos amoral e subalterna, mero objecto de prazer, massa de instincto e de passividade, de pernas cruzadas, em cima d'um estrado, a jogar o xadrez, a enfiar pérolas e aljôfares e a recitar as Horas Canónicas e as Horas de Santa Maria com um isochronismo de pêndulo. Que ha, porém, a esperar de uma época, em que a mãe do fundador da monarchia alterna dos braços d'um Trava para outro Trava, D. Affonso Henriques arranca uma sua filha ao marido para a afivelar ao Braganção e a abbadessa Grácia Mendes, mandada vir para concubina de D. Affonso III, vae pagando pelo caminho direitos de entrada ao fidalgo que a traz e direitos de saída ao fidalgo que a leva!? Que querem de uma época, em que o christianismo abate o grande valor moral e artistico do corpo, apontando-o como deposito de podridões e ninho de vicios, com o fim de só glorificar a alma em consagração a Deus? Cuidar do corpo! Não; que a carne é ignominia. Escondê-lo bem, mortificá-lo, desprezá-lo.

Sem esse culto a mulher rebaixa-se, apaga-se; a sua sensualidade brutalisa-se. Sem a preparação indispensavel, a sua intelligencia não scintilla. E assim vemos as afamadas mulheres de então, negada ás suas formas a veneração grega e privado o seu cerebro do cultivo romano, a dominarem não pela belleza do espirito, mas pela belleza natural do corpo e pela sensualidade unicamente animal, que o inflamma numa revolta ingénita contra o desprezo a que o votam. Descurada material e espiritualmente, que outra mulher podia saír d'esta sociedade? A mulher subalterna, embora digna de todo o nosso respeito por essa sua propria subalternidade, porque, entregue inteiramente aos seus asperos instinctos, sabe orar e mortificar-se. Nestas condições e durante um periodo tão sêco e árido, de cilicios e penitencias, de passividade e isolamento, erguem-se nos primeiros tempos da monarchia as infantas D. Sancha e D. Thereza, irmãs de D. Affonso II, instituidoras das gafarias, onde ellas proprias lavam as chagas dos leprosos, e mais tarde, no estrebuxar da dynastia affonsina para o alvor da dynastia de Aviz, Deusadeu Martins, Brites de Almeida e Maria de Sousa. A primeira, por seu valor e astucia, immortalisa-se na defesa de Monsão; a segunda torna lendaria uma pá de forno; a terceira salva a vida do Mestre de Aviz, atravessando com uma partazana o peito do renegado Gonçalo de Gusmão e tolhendo o passo a uma partida de castelhanos. Que representam estas cinco mulheres? A caridade e a bravura. Lances poeticos de amor, fulgurações de espirito? Não se vislumbram. Apenas mortificação, humildade e força animal ao serviço d'um levantado espirito.

Chega a época de D. João I, e pela influencia de D. Filippa de Lencastre, a mulher começa a divinisar-se: deixa de ser uma cousa para ser alguem. Forma-se a sua individualidade. Depois d'uma curta transição, em que a rainha, percebendo a necessidade de disciplinar as paixões brutaes dos homens, privou da escolha o instincto e estabeleceu como que—perdoem-me a palavra—uma coudelaria da côrte, determinando casamentos, desapparece a posse brutal, quebra-se a grilheta do Eu quero aquella mulher, e illuminada por uma aurora de sonho e de fantasia, ella descerra os labios tremulos e murmura pela primeira vez: «Eu amo!» Inicia-se o seu poema, nasce a flôr do sentimento. É o influxo das novellas do cyclo bretão, que se exerce; é a figura resplandecente de Isolda que vem redimir a mulher portugueza, transformando-a de simples instrumento de prazer em força, direito e razão de amor, engrandecendo-a, sensibilisando-a. É essa poesia, que, romantisando-lhe a imaginação por meio de formas ideaes, lhe enche a alma e a vida com o sopro perfumado da felicidade, ou com as torturas da desgraça, e lhe faz antever a realidade humana pela mutua posse de duas almas. É Isolda, debruçada sobre o cadaver de Tristão, a dizer-lhe: «Vendo-te morto, ó meu Tristão, não posso, nem tenho o direito de viver. Morreste por meu amor e eu morro de tristeza por não ter chegado a tempo.» É a figura de Isolda a espiritualisar a sensualidade na mulher, como a figura de Galaaz, pela preoccupação da virgindade, a influir sobre o homem, dando-nos Nun'Alvares a resistir ao casamento, o infante D. Duarte a consorciar-se, aos 37 annos, ainda de palmito e capella, e o cardeal D. Jayme, que, instado pelos medicos para aquecer o leito ao calor d'uma mulher e com este agradavel remedio salvar a vida, exclama estupidamente: «Antes quero morrer limpo do que morrer sujo!»

A mulher portugueza, até esse momento crisalida do amor, rompe o casulo da sua intelligencia, da sua dignidade e do seu coração e entra a deslumbrar-nos com o resplendor do espirito e do sentimento, mais tarde revigorado por outras influencias derivadas em grande parte da exuberante erudição que veiu da Renascença. O seu vôo eleva-se, e no reinado de D. João II a mulher da côrte já verseja e franqueia o seu entendimento a estudos profundos. A primeira verdadeiramente notavel, que se nos depara, é D. Filippa, filha do infante D. Pedro, trazendo pela mão sua sobrinha, a infanta D. Joanna, por ella educada e para quem traduziu do latim o Tratado da vida solitaria;—tão culta, que escreveu notas politicas, cuja importancia resalta na Pratica ao Senado de Lisboa, quando se receavam tumultos na capital, e tão artista, que era a illuminadora das suas obras. Em seguida tres rainhas exercem uma acção decisiva no theatro portuguez: D. Beatriz, mãe de D. Manuel, D. Maria, sua mulher, e D. Leonor, viuva de D. João II. É sob a sua protecção que nasce o theatro nacional. Pondo de parte a segunda, por não portugueza, vemos ao lado de D. Beatriz, a mais sumptuosa mulher do seu tempo, D. Leonor a praticar o bem, a animar o talento e as artes. Funda o hospital das Caldas, as Mercearias, a Misericordia de Lisboa, dá impulso á typographia e acolhe Gil Vicente. Affirma-se uma obra civilisadora pela conformidade do coração com o cerebro.

O brilhantismo litterario da côrte attinge a sua edade de ouro, fortifica-se e expande-se para ir morrer no Paço da infanta D. Maria, onde, na Academia artistica e na Academia litteraria, ao lado das italianas Angela e Luiza Sigêa, brilham D. Leonor de Noronha, a traductora e annotadora de Marco Antonio Sibellico, Joanna Vaz, a loira coimbrã, poetisa e historiadora, Paula Vicenta com o seu pujante talento dramatico, e Publia Hortensia, que, aos 17 annos, discute Aristoteles com homens de alto saber, depois de ter feito em Coimbra os cursos de philosophia e theologia. Este banho de luz exalta a mulher, ainda com as pernas cruzadas sobre um estrado, fechada em casa e recebendo apenas o frade. A sua alma divinisa-se; a poesia cerca-a e ella poetisa tambem. Intellectualisa-se, sonha e tem visões. Mas a enorme transformação, que neste periodo se operou entre nós pelo descobrimento do caminho maritimo para a India, deslocando o centro de gravidade do emporio de Veneza para Lisboa, se deu ensejo á permuta intellectual com o estrangeiro, d'onde vieram homens dos mais doutos para as Universidades e mulheres illustres para o cenaculo da Infanta, trouxe conjunctamente o mercador, o homem de negocios, o homem de dinheiro e com elle o prazer e o vicio. Então o portuguez aferrolhou ainda mais a mulher, sobrepoz adufas a adufas, rotulas a rotulas, cortando-lhe toda a communicação para o exterior, e os moralistas apregoaram que a missão feminina consistia sómente em fiar, conceber e chorar.

Já illuminada, sentindo bem a posse de si propria, á oppressão contrapõe o ardil e recorre á intermediaria:—Branca Gil do Velho da Horta e Brizida Vaz do Auto da Barca. Todavia, ao mesmo tempo que uns enclausuravam as mulheres, outros embarcavam-se para a India, deixando-as á vontade e só receosas de elles não chegarem a partir:—dialogo entre a Ama e a Moça do Auto da India. A inteira clausura tem de terminar; a reacção vem logo depois. A mulher, se em casa está posta em recato, encontra a sociabilidade na rua. Nas frissuras dos pateos de comedia, nas tranqueiras das praças de touros, nos palanques dos autos de fé, em todas as festas publicas junta-se com o homem. Lisboa é Grecia e Roma:—em casa o gyneceu atheniense, na rua o convivio romano.

Recuemos, porêm, um pouco. No despovoamento de Portugal, se alguns homens se apartam das mulheres, outros levam-nas e algumas das que os acompanham identificam-se com elles em rasgos de heroismo e dedicação, que as egualam ás mais celebres espartanas. Nos memoraveis cercos de Diu lá as vemos fazendo rosto ao inimigo, correndo da agulha á lança, do estrado á muralha. Isabel Madeira, morto em seus braços o marido, com a mais firme estoicidade sepulta-o e volta ao trabalho das tranqueiras. Anna Fernandes, a famosa velha de Diu, assume proporções épicas ao dar-se o assalto da mina, no baluarte de D. Fernando. Quando tudo vôa pelos ares, paredes, alicerces, cavalleiros e soldados e a investida dos mouros arde em maior sanha, ella, num impeto de decisão e energia, á frente das nossas indianas, umas a arremessarem pedregulhos, outras a acudirem com pelouros, metallificando a voz em estridente clarim de guerra, brada aos nossos homens:—«Pelejae por vosso Deus! pelejae por vosso rei, cavalleiros de Christo, porque Deus está comvosco!» A estes exemplos do mais esforçado animo, outros se juntam de abnegação não menos admiravel. Catharina de Sousa, mandando as suas joias a D. João de Castro, diz-lhe que empenhará a sua propria filha, se tanto fôr necessario para o serviço da patria. D. Joanna de Avelar escreve á regente: «Senhora! Acabo de perder dois filhos: um que me ficou morto na guerra do Mazagão, outro na guerra da India. Resta-me só este terceiro, o mais novo, ainda não soldado e que é o portador d'esta carta. Offereço-o a Vossa Alteza para seguir o exemplo, que seus irmãos lhe deram.»

Ó mulheres portuguezas, orgulhae-vos tanto do vosso inexcedivel valor, como do vosso enternecido coração, onde o amor e o brio nacional sempre acharam o mais retumbante echo!

Não percamos a curva e attentemos. Á mulher medieva, mortificada e humilde, segue-se a mulher dignificada e esclarecida, á mulher-cousa substitue-se a mulher-espirito, e sempre o mesmo sangue ardente lhe aquece as veias e lhe robustece o braço, como, para não voltarmos a esta sua modalidade, se continua a verificar em D. Filippa de Vilhena e D. Marianna de Lencastre, em 1640, na condessa de Castello Melhor e em Helena Peres numa nova defesa de Monsão, e mais tarde, no seculo XVIII, em D. Maria de Sequeira, que chamando a si o commando d'uma nau atacada, no seu regresso da Bahia, por uma esquadrilha de corsarios argelinos, logo inflige ao inimigo uma desastrosa e veloz retirada. Não affrouxam o heroismo e a bravura na mulher portugueza, cujo dominio se alarga do corpo para o espirito. Em cada alma feminina despertam e palpitam milhares de almas conscientes, que espargem luz e sublimam quanto tocam. A poesia dá-lhe ternura, a arte afina-lhe as linhas da intelligencia e apura-lhe o gosto. Sente o direito de amar egual ao de ser amada. A massa faz-se carne, a carne torna-se flôr e a flôr espalha aroma. Isolda abre-lhe o coração e beija-lh'o, o sangue leva-lhe esse beijo ao cerebro e a mulher portugueza pensa e sonha, mas os seus sonhos são innocentes, porque os originam a pureza da lenda e a castidade devaneadora das personagens. É a aurora da mulher de hoje, então ainda simples nas suas aspirações:—nem o sol a queima, nem o luar lhe esfuma mysterios. É o côr de rosa, a serenidade do romper da manhã.