Vem a dominação dos Filippes. Com a perda da independencia foge para Madrid grande parte da força intellectual e artistica, mas a Espanha alguma cousa nos manda em troca. O seu theatro revela uma nova feição do amor,—o amor que mata, que encanta e faz chorar. D. Juan Tenorio apossa-se dos corações; nasce o homem fatal e nasce a mulher fatal. A morte da mulher pelo marido já não é o direito do senhor, é o direito do coração. Esboça-se a alvorada do Resistiu-me? Matei-a! A mulher, engolfada no drama, estende a mão para a tragedia. O manteu dispensa a alcovêta. Embiocada, pode saír impunemente e assim vae até 1640 por entre lances arriscados de amor, sob o pontificado da capa e espada e a protecção do biôco. É neste periodo que, emquanto Soror Brigida, olhos postos na gloria eterna, se arrebata no amor divino, Soror Violante, a meio caminho das alturas, se debruça para o mundo e fita os olhos na terra:

Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tyrano deus Cupido,
Pois tirando-me emfim todo o sentido,
Me deixa o sentimento duplicado!

O mysticismo procura a conjuncção com o mundanismo; a mulher equilibra-se entre a terra e o céu. Faz-se a Restauração. Os usos e os costumes não se modificam, embora se perceba uma tendencia regressiva para o seculo XVI, até que D. Maria Francisca de Saboya importa para a nossa côrte, as modas, os costumes, os galanteios e em si propria o figurino da corrupção da côrte franceza. A francezia lança as suas garras e empolga as nossas mulheres e os nossos homens, creando a frança e o faceira. Ao amor tragico e sinistro do theatro espanhol succede o amor leve e brincado. O espirito da mulher portugueza adelgaça-se e ao mesmo tempo que ainda se dramatisa em Mariana Alcoforado com o coração a fistular-se de amargura e os olhos aferrados na estrada por onde o seu amante seguiu para não mais voltar, atira-nos de chofre com a galhofeira D. Feliciana de Milão a saracotear-se pela Rua Nova, numa semcerimonia impropria d'aquelle seculo, faladora, mexeriqueira, enxertia da verve franceza na graça portugueza, a fazer trocadilhos em Odivellas e a dizer ás creadas, que na egreja de S. Roque procuravam abrir-lhe passagem junto de certa dama, cujo amor valia ouro e obstinada em não querer levantar-se: «Deixae-a, deixae-a, que não se levanta de graça quem se deita por dinheiro.»

A mulher avança em liberdade e sociabilidade, do seu coração apagam-se as paginas suaves e ingenuas dos poemas lendarios, a sua alma palpita com outra energia, a vida pelo amor e o amor pela vida é o que a impressiona, o que lhe move os sentidos e lhe encanta a razão. Mas ainda está separada do homem nas etiquetas da côrte e impõe-se que a ambicionada juncção se effectue. Determina-a D. João V, ao lado do conde da Ericeira, do que resulta o namoro dentro de casa, tendo o leque e o lenço por signaleiros. Manifesta-se então um facto curioso: a mulher decota-se quasi até o umbigo e não se lhe lobriga o bico do sapato. Porquê? Porque oscilla entre a comica e a freira. Esta recata-a da cintura para baixo, aquella desnuda-a da cintura para cima. Comicas e freiras dividem entre si o poder. Todo o galante tem uma freira e tem uma comica. O theatro recupera a sua influencia. A mulher imita as comicas no andar, nos gestos, nas attitudes e nas modas; perde o sentimento proprio e adquire o sentimento alheio. Simultaneamente, o amor freiratico, com requintes de platonismo, chega á allucinação e a donzella passa ao escuro. Não podendo subir ao palco, enche os conventos, onde tres caminhos a attraem: o da santidade, o da litteratura e o da profanação do habito. E é neste solavanco de almas e corpos a tentarem o equilibrio, que a arte e a litteratura transluzem e occupam o logar primacial nos quadros de Josepha de Ayala, nos planos architectonicos de D. Margarida de Noronha, na ceramica de Ignacia de Almeida e nas comedias e poesias de D. Joanna Ignez da Cruz, guindada a Decima Musa.

Sobre este periodo de impropriedade feminina vem o periodo pombalino com a plutocracia e a alta industria triumphantes. A comica e a freira descem de cotação; constituem-se os salões; da senhora, com toda a sua nobre seducção, sae a conversadora, cujos prototypos se modelam na condessa de Soure e em D. Maria May. A frança e o faceira prolongam-se, em agudo preciosismo, na sécia e no peralta; o leque, que se arrebica com o cognome de marotinho, reentra em acção; inaugura-se o alphabeto dos dedos; o namoro de portas a dentro conquista liberdade absoluta; estabelecem-se as academias de fandango, onde os dois sexos deliram. Morre D. José, e a viradeira fanatica, com o regresso dos jesuitas e da nobreza eivada de fanatismo, proíbe que as mulheres dansem. Os corpos de baile são formados por barbaças em travesti e quem canta são os castrati. A mulher soffre de novo a clausura, o theatro é-lhe vedado, a sua intelligencia geme sob uma suffocação. Mas pela influencia do passado, da educação recebida, apparecem as poetisas palacianas, que correspondem ás versejadoras do Paço no seculo XV, tomando superior vulto a notabilissima e formosa Marqueza de Alorna, a viscondessa de Balsemão, D. Francisca de Paula Possolo e D. Thereza de Mello Breyner,—e em Napoles a figura tragica de Leonor da Fonseca Pimentel, proclamando a eterna justiça, transforma o patibulo do seu corpo em apotheose da sua alma.

Desde a perda da nossa independencia, a mulher portugueza passa por transições bruscas, que a sacodem e instabilisam, sem os necessarios estadios, fazendo-a uma complicação sem termo e dando-lhe ainda uma nova feição com a vinda dos francezes. Nessa convulsão a sua liberdade espraia-se; marca-se o periodo da casquilha e do bandarra, dos pisa-flôres e dos janotas. O amor perturba-a e não ha ter-lhe mão. Estonteada pelas fardas chamarradas e pelo aprumo viril, entrega-se nos braços dos officiaes franceses. Vive-se um pouco a vida de Paris, não a vida leve e vaporosa do tempo da Brichota, mas a do Imperio com todos os seus desvairos. Salva-a num movimento decidido, pulso forte, que refreia a corrida á rédea solta. O vintismo corrige a depravação. A mulher volta ao lar, faz-se dona de casa; a educação domestica reveste-se de gravidade; prega-se a virtude. Em auxilio d'este esforço entram o romantismo francez e o inglez. Chateaubriand exalta a mãe e exclama: «Aleitar os filhos é a maior belleza!» E então as mulheres vão para os bailes levando os filhos ao colo e dão-lhes de mamar deante de toda a gente. É a sua segunda dignificação. Succede, porêm, ao vintismo, em que tudo veste briche—corpos e corações—o periodo nevrotico de D. Miguel com um retrocesso momentaneo á época de D. Sebastião. O pegador de touros torna-se o ideal da mulher. Instante rapidissimo. Com D. Pedro IV, toda a valente pleiade de emigrados traz o influxo estrangeiro, e pela irradiação de Hugo, Lamartine, Vigny, Musset e do proprio Garrett molda-se a romantica.

Abrem-se os salões para os grandes bailes; mas já não é o salão pombalino, é o salão com o estrangeirismo. Irrompe uma nova sociedade, começam as classes altas a descer e as classes baixas a subir, e a portuguezinha, pallida e luarenta, atravessa de olhos em alvo, por entre os homens terriveis, nos bailes do Manteigueiro, da Assembleia, da Regaleira, das Laranjeiras, do marquez de Vianna e do marquez de Penafiel, e nas reuniões litterarias da interessantissima D. Maria Krus, de cabecinha ao lado emmoldurada em bandós. Apesar d'este acesso febril, fortalecida com o exemplo de D. Maria II, conserva-se ainda a boa dona de casa e o namoro faz-se sob resguardo, emquanto não a surpreende o néo-romantismo, na passagem do reinado de D. Pedro V para o de D. Luiz, e ella desata a soluçar e a tomar amor á tisica. O Passeio Publico colma-se de namoricos, e a mulher, que tão bem soube usar da sua graça e da sua seducção na vida portugueza de 1830 a 1860, vae-se diminuindo pouco a pouco a si propria e só nos ultimos vinte annos, dentro d'um rasgado desafogo, torna a fulgir pela illustração com que se cultiva, pelo gosto que se lhe apura, pela intelligencia que se lhe desenvolve.

Tendo percorrido uma curva, por vezes extravagante, e acabando por investigar com desembaraço varios problemas psychologicos e por se integrar na vida social, apresenta-se-nos no seculo XX, ora ponto de interrogação, ora exclamação reveladora. Talvez não erre classificando a mulher de hoje—a mulher anciosa. É a anciedade o que a domina, anciedade de saber, anciedade de dirigir a sua vida, anciedade de inteira libertação, anciedade de attingir o ideal, que para si propria creou. E d'este conjuncto de aspirações resulta ser o nosso constante auxilio, a força da nossa força, a intelligencia da nossa intelligencia, o coração do nosso coração, o braço do nosso braço.

Eternamente governada pelo sentimento, com a ternura que nenhuma outra possue, meiga, affectuosa e soffredora, arte viva pela harmonia da formosura, pela melodia da voz e pela doçura do trato, religião sublime pela elevação do espirito, onde repercute a dôr eterna e brilha a esperança immortal, poema dos sentidos, de todo o amor e de todas as crenças, rosario, flôr, sol e luar, breviario e epopeia, bella, resignada e casta,—ó mulher portugueza, pelas evoluções que tendes percorrido, vós fostes, sois e haveis de continuar a ser o viço do nosso olhar, o paladar da nossa bôca, a musica dos nossos ouvidos, o verdadeiro corpo da nossa alma e acima de tudo a raiz de toda a nossa poesia e o alento da nossa patria. Conduzi-a, pois, sem o minimo desfallecimento, sempre vigilante, sempre terna, esteio da nossa fé, estandarte dos nossos triumphos, cantico das nossas glorias! Mulher-arte, mulher-religião, com a vossa influencia, com a agudeza do vosso espirito e com a generosidade dos vossos sentimentos, espalhae o amor entre nós todos! Dos vossos olhos, dos vossos labios, dos vossos corações lançae jorros de amor, porque de muito amor é que precisa a nossa linda e querida terra e outra fonte não temos aonde o vamos beber. Filippa de Vilhena, para restaurar Portugal do jugo castelhano, armou os seus dois filhos com duas espadas, e vós, mulheres de hoje, se quereis restaurar a patria do jugo das inimizades e malquerenças, abri o vosso peito e armae com o vosso coração os vossos entes mais queridos. Elles ficarão sendo os abençoados cavalleiros da concordia e do amor, e Portugal inteiro ajoelhará a vossos pés, exclamando, commovido:—Bemdita, mil vezes bemdita, ó mulher portugueza!

End of Project Gutenberg's A Mulher Portugueza, by Eduardo Shwalbach Lucci