O INCOMPARAVEL TRADUCTOR DOS FASTOS DE OVIDIO
OBRA EM QUE SE FAZ O CONFRONTO DE ROMULO E JESUS-CHRISTO
OFFERECIDA AO INCOMPARAVEL
DUQUE DE SALDANHA

COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
1865

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Em Coimbra: ás 5 horas da madrugada do dia 20 de novembro de 1865; ao concluir um innocente e util trabalho em que se pretende demonstrar, que ao cantar da segunda cigarra de Anacreonte, sob a copa da frondosa olaia do Saturno portuguez, se está forjando o dogma da infallibilidade litteraria do sobredito senhor; proclamando o dom da inerrancia do mesmo; resuscitando um odio velho contra a universidade de coimbra; condemnando o producto espontaneo do trabalho intellectual, livre e independente; fazendo sordida mercancia do futuro—a quem mais der—; permutando a lisonja vilan pelos 30 dinheiros pharisaicos; transigindo ignominiosamente com as paixões egoistas da actualidade a troco das ovações da burguezia, senhora das situações prosperas e beneficentes.

Amigo—Em que cyclo social andaram os talentos d'esta, ou de outra qualquer terra, pela arreata das auctoridades?!...

Em que geração andaram aguadeiros litterarios, com os canecos do genio ás costas, dessedentando os sequiosos de verdade e inspiração, aspergindo a agua lustral no seio das multidões, fornecendo as fontes do espirito publico, pregoando a superior qualidade do producto litterario ou scientifico nacional, porque traz a marca d'alfandega—A. F. C.?!...{4}


Pobres dos pilotos da humanidade se, tendo, através da esteira dos tempos, que vão cahindo nos abysmos do passado, conduzido as civilisações com a unica bussola do seu livre alvedrio, têm no seculo XIX de fazer a figura de amphoras humanas nas mãos do primeiro aguadeiro ambicioso!?...

A mim, que fui embalado com os primeiros vagidos da eschola liberal, a unica que tem as regalias, os privilegios, os foros da independencia, a unica, que tem um axioma por principio, tinham-me dito, que a liberdade de toda a industria humana é a primeira condição do seu desinvolvimento e progressos; que o principio da responsabilidade individual é o primeiro motor do bello, do grande, do util, do ideal; que o prysma social tem apenas algumas faces, que reflectem já a septiforme côr da aurora boreal do futuro, e infinitas que, os que nos precederam, deixaram na obscuridade, e que é forçoso clarear de viva luz; que ao livre trabalho do pensamento incumbe esta tarefa civilisadora; que a da «mercancia por avareza, das lettras por vaidade, dos litigios prolongados por caprichoso empenho», tem sido a thenia enorme que, inoculando-se no coração das sociedades, vai seccando as fontes da moralidade, viciando e prevertendo os abundantes succos nutritivos da arvore do bem, torcendo vigorosos musculos sociaes, prostituindo a mulher, desatando os vinculos da familia,—o fogo sagrado do Estado,—dividindo os interesses da communa, semeando a descrença e o desconforto nos orgãos da nacionalidade.

A mim tinham-me dito principalmente, que a suprema fórmula de todo o homem, é a sua moralidade e independencia; que esta consistia em ser cada um responsavel pelo que pensa perante Deus, pelo que sente perante a sua consciencia, pelo que escreve, pelo que diz perante a sociedade.