Seria eu victima de um embuste grosseiro? Enganar-me-iam os apostolos do Evangelho da liberdade a mim, que, sincero, puro e innocente, os escutava em religioso silencio, numa quasi que idolatria?!...
Tu, meu amigo, dizes-me que não; que o facto póde traduzir uma abjecção moral, uma torpeza de todo o ponto condemnavel, mas que isto não é mais que um accidente, susceptivel de correcção e exemplo: que a these é a que bebemos com o leite da nova mãe social, aquella que me convida{5} a junctar hoje ao teu nome «quasi desconhecido» o meu que apenas consta de um assento de baptismo que nunca ninguem leu.
Deixo-o ahi escripto por duas considerações sómente; a primeira como protesto, a segunda como cautela; a primeira, porque juro viver e morrer á sombra da bandeira de Jules Simon, por nenhum preço a sombra da copa da olaia de Antonio Feliciano de Castilho, que respeito como talento, como homem que «por entre os edificadores do futuro anda estudando o passado», que detesto como caracter, e como traficante convicto de cambio litterario: a segunda porque sei que verdades amargas magoam o alifafe moral de consciencias vulneraveis; porque sei que o principio da auctoridade, a immodestia immoderada, a vaidade impertinente, a consciencia da suprema gloria e do ultimo laudo em bom-senso e em bom-gosto são entidades congenitas do principio da irritabilidade, e porque finalmente os desvios da má indole e as paixões violentas da soberba indomavel e indelicada poderiam tosquiar algum camêlo ou fraco ou innocente.
Postas as cousas a esta luz, benefica para quem se allumiar d'ella no interesse do futuro e dos tibios do proprio campo, conversemos um pouco.
Eu não quiz ler o escripto de Antonio Feliciano de Castilho no livro do sr. Pinheiro Chagas—Poema da mocidade—onde a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto se citam os nomes illustres—Theophilo Braga—Vieira de Castro, e o teu «quasi desconhecido», e se tosquia sem clemencia nem piedade, com odio, com azedume, a chamada eschola litteraria de Coimbra, eschola que não existe, camêlo imaginario, camêlo creado pelo sr. Castilho nas suas segunda e terceira intenção. Façamos justiça á pontaria do genio. Encadernado na mais esplendida capa litteraria, que jámais vimos, está o homem, que, fazendo fogo de caçador esperto, atira a dois alvos ao mesmo tempo. É esta a verdade, isto o que é preciso ver e definir detalhadamente.
Eu não quiz ler, por ter lido a—conversação preambular—do D. Jayme, do sr. Thomaz Ribeiro.
Era razão de sobejo.
Conheci o sr. Thomaz Ribeiro antes do seu poema, e o poema depois, que me deliciei eu com o ouvir recitar ao proprio{6} auctor em 1860 na sociedade do dr. Antonio de Oliveira Silva Gaio; á sombra da copa de nenhuma olaia, não; no seio da estima não mercadejada, da admiração desinteressada, da livre apreciação, sim.
Que o auctor fôra bafejado no berço por espiritos bons, fadado para destinos melhores ainda, para uma independente e mais que muito justa reputação litteraria, soubemo-lo, e dissemol-o nós então.
O sr. Thomaz Antonio Ribeiro nascera tambem no seio da eschola liberal, ou, o que mais val, acceitára por amor e convicção o principio na sua accepção mais larga, na sua concepção mais absoluta, curando menos dos preceitos, e ainda menos dos preconceitos de eschola. Muito intelligente, soube ser livre, tirou de si seus recursos, trabalhou por sua conta e risco. Na pia baptismal do trabalho purificou as suas crenças como homem e como escriptor, fortaleceu a sua religião social e litteraria, não pedindo inspiração mais do que á fonte commum, a propria natureza e a das cousas, alentos senão á vontade, que o trabalhava, confortos senão á propria consciencia, elevação e independencia sómente á sua dignidade, consolações sómente á maxima expressão de todo o homem, a sua moralidade.