Saturnus exultavit cum planctu magno.{8}


Eu que estava neste momento, quando tudo isto se passava, distinguindo á luz do bom-senso e do bom-gosto o paganismo e a ideia christã, abria pela primeira vez a traducção dos Fastos de Ovidio, e pasmava, pasmava sinceramente, de ver o hyerophante do seculo estabelecer o confronto do seductor das sabinas e do casto Filho de Maria!

Eu acabava de concluir na intimidade do meu pensamento, que os grandes homens tinham jogado as nozes com os rapazes, e que dispensarem-se de dizer tolices como elles seria falta de logica....

Não obstante eu pedia ainda sobras á vontade para crer, que os talentos saudosos do passado não negociavam com as suas crenças, quando o vento do levante, entrando no meu gabinete de trabalho, me desdobrou a primeira pagina do livro. Estava ahi escripta em lettras negras, grandes, famosas, uma dedicatoria:

Ao incomparavel Duque de Saldanha!

O sol nascia d'esta vez no meu pacifico retiro: um facho de luz inundava-me a fronte carregada de pensamentos tenebrosos, e o jubilo entrava em minha alma!

Mentira!

A opinião publica era a Messalina devassa que se prostituira ainda uma vez ao erro voluntario de uma calumnia vilã, vendendo uns restos de honestidade, que nunca ninguem perdeu, ao odio eterno e inclemente das paixões partidarias.

A opinião publica indignada, cujos murmurios escutava com vago terror, que eu julgava apenas suffocada pela força das conveniencias, mas distinguindo já através das sombras da posteridade um annel de fogo envolvendo dois astros, que até mesmo no abysmo das miseraveis vergonhas, a que sub-serviram, tiveram luz para se esconderem as pustulas dos olhos investigadores da geração, que, cometas funestos, esterilisaram por um lado, desmoralisaram por outro, instruiram pelo ultimo; a opinião-publica, que via, que proclamava tudo isto, não era dominada senão pela odio dos Titães, o odio que tentava escalar os astros, que na obra do paganismo enlaçaram suas orbitas para maior gloria do Christianismo!{9}