E todavia era uma infamia!

Eu via, não podia duvidar: um genio coroava outro!

Os pobres de espirito como eu poderiam errar, depositando uma oblata christã sobre as aras ensanguentadas de Mavorte: os sanctos innocentes da eschola de Coimbra poderiam ignorar as noções mais vulgares do bem e do mal, a mais simples regra de honestidade, o mais ostensivo principio de moral practica e de moral christã; mas a intelligencia, o genio, o talento, a philosophia, a historia, a luz, a vista de aguia, não, não, e não podiam ver a infamia, onde só mora a virtude, o ultramontanismo, onde só mora a liberdade, a reacção, onde repousa a inercia, o templario politico, onde se aninha a pomba innocente e immaculada, de olhar azul e candido, magico, sereno, celestial, divino.

E eu, que ás cinco horas da madrugada ia ser um ecco da opinião publica, e de uma infame calumnia, ás oito sou apenas um bemaventurado!

Eu ia talvez dizer, se o vento do levante me não traz aos olhos a—dedicatoria—que quaesquer que fossem os nomes, que os nomes dos grandes pretendessem illuminar e impôr aos livres pensadores da eschola liberal, desciam, baixavam á condição servil dos que procuram diluir o successo no expediente, justificar a immoralidade e a baixeza da alienação do seu primeiro direito absoluto com o bom successo do jogo de fundos litterarios; insinuar talvez, que existia ainda uma litteratura unica, embora absurda, embora metaphysica, embora inintelligivel e portanto ideal, ou ideal e portanto inintelligivel, embora asnatica, embora desgraciosa na essencia e na fórma—innocente, casta, pura, independente, espiritualista, moralisadora antes de tudo e sobre tudo; que essa litteratura era a que se condemnava pelo talento serio de Antonio Feliciano de Castilho no—Poema da mocidade—litteratura que se não prostituira nos mercados publicos ao osculo do primeiro Judas litterario do seculo. Se não existira uma atmosphera, pura e buliçosa, onde podessemos ainda respirar, ia proclamar bem alto, que a litteratura de Antheros, de Vieira de Castro, de Theophylo Braga, de todos os Bragas, de todos os escriptores nobilitados pelo cunho da sua independencia, de Coimbra, do Porto, de Lisboa, não é o producto liquido e homogeneo de nenhuma eschola, porque{10} tal não existe em parte alguma, e menos em Coimbra; que o primeiro estylista do paiz a classificara assim para practicar uma dupla baixeza, impropria de um talento raro e serio, de um homem honesto, desambicioso, desinteressado; diria comtigo, Anthero—«Combatem-se os herejes da eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, e do atrevimento de sua reputação moral, do attentado de sua probidade litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarem por suas cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e pequenez moral e intellectual... Mas é que a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peor de que um crime—commetteu uma grande falta: quiz innovar. Ora, para as litteraturas officiaes, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sophismas, do que envenenar com o erro as fontes do espirito publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, peior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de dizer, e não repetir; de inventar, e não de copiar. Porque? Porque todos os outros crimes eram contra as ideias: haveria sempre um perdão para elles. Mas esta falta era contra as pessoas; e essas taes são imperdoaveis.» Commettendo sem duvida a esquerda indiscrição de asseverar que aquella dupla baixeza consistia em envolver ao mesmo tempo tres nomes distinctos, que nunca lhe pediram ao mestre nem protecção nem arrimo, na mesma damnação do seu orgulho omnipotente, e presuppôr, armar, construir do alicerce até á telha uma eschola litteraria em Coimbra, para a atirar á cara da universidade, que o fez poeta e grande, cerrando-lhe as portas do magisterio, porque a vida de lente é a cousa mais sinceramente prosaica, que ainda houve—Affirmaria sem duvida que este odio é negro, é velho, e ha de ser eterno! Diria que em principios do anno de 1835 a universidade foi vivamente atacada pelos então chamados—Institutarios—que, contando com as luctas e dissenções dos correligionarios dos dois partidos extremos, que então se dilaceravam no proprio seio da universidade, a desprestigiavam e calumniavam a academia d'esses tempos, servindo-se de uma imprensa corrupta e vendida a um certo frade, que não achava desgostosa{11} a tisana de lodo que do Tibre lhe mandaram para beber. Tractava-se nem mais nem menos do que da mudança da universidade para Lisboa, onde os obreiros, negros na alma e no habito, tinham o seu principal centro de operações, onde seria arma terrivel contra as instituições liberaes: que a bella e intelligente fronte da estudiosa adolescente do paiz, vendo que lhe roubavam a liberdade e a honra, despertara da somnolencia dos que soffrem, porque têm vida, que lhes não deixam viver, e, acalentada pelos generosissimos e liberalissimos sentimentos de alguns academicos distinctos, acceitára a luva que se jogava á universidade: que o jornal, o Academico, fôra publicado em principios do anno de 1835, e dahi até 28 de junho do mesmo anno, em 49 numeros, evidenciára que á litteratura de Coimbra não presta para baixezas, mas póde e sabe saldar as suas dividas de honra: que todos os artigos do Academico, jornal ao mesmo tempo litterario, scientifico e politico, d'aquella politica que convém a academicos—a da imparcialidade—respiravam tanto bom-senso, tanto bom-gosto, e tanta moderação, que foram elles que semearam no meio do paiz opiniões mais justas e sensatas sobre a questão universitaria, que a final foi julgada pelo parlamento do modo mais lisongeiro para a universidade. Perguntaria depois d'isto ao sabio distincto, ao engenho raro:—Ereis estranho á seita dos—Institutarios—conhecieis-l'os, vistel-os, sabieis-lhes os nomes, apertastes-lhes as mãos, assentastes-vos com elles á sombra da copa da vossa olaia a conversar, com razão ou sem ella, «em practica chã, desenfadada e satisfeita, como é de uso entre lavradores chãos e abonados depois de uma colheita abençoada»?!—Com a mão sobre a cabeça respondei, senhor! Eu creio-vos, eu proclamei o dogma da vossa infallibilidade: vós não podeis errar, enganar, e menos ser enganado!

Se aquella veridica—dedicatoria—me não illuminasse o espirito, diria que em 1854 o conselho de decanos da universidade negára ao illustre escriptor a sala dos capellos, que sollicitára para ensinar á eschola de Coimbra o methodo de leitura repentina, com bem fundados receios de que os nossos monarchas, os representantes de setecentos e cincoenta e quatro annos de cousas serias, ririam até rebentar, o que não era bonito: que por essa occasião, no salão do Instituto,{12} o auctor do methodo se dignára manifestar a consideração em que pôz sempre a universidade: que o ouvi eu, que tenho o orgulho de ser d'aquelles, que nunca deixaram cobrir da poeira do esquecimento insultos ou perolas que de maduras cahissem na sua presença de labios sibylinos, ou viperinos: affirmaria que o sr. Antonio Feliciano de Castilho na sua ultima visita a Coimbra azedou com a suprema injuria da nenhuma practica que teve com academicos á sombra da copa da sua olaia, porque nem um só devoto, ao que me disseram, queimou um só grão de incenso e myrrha ao idolo dos que por modestia, por bondade, por terror, por imitação, vão mendigar á sua porta um obulo da graça das multidões, que com razão o admiram nas suas inimitaveis traducções, nos seus poemas, nas suas imitações, e até mesmo nas inimitaveis contrafações do seu caracter.

Continuaria a dizer, que a cousa assim é mais commoda e mais decente, porque é arteira, porque deixa sempre livre á tangente do seu odio por todos e por tudo o systema matreiro da raposa velha. E diria ainda em termos mais claros: o Ovidio portuguez, temendo «aventurar a vida por desempenhar um pontinho de honra propria», preparou e prepara sempre previdentemente o terreno de vespera, semeia o pomo da discordia em propriedade alheia, e deixa ao proprietario, agradecido da sua abençoada lavoura, o cuidado de defender os renovos. Já cançado de tosquiar camêlos, como tão classicamente escreve, assenta-se com razão a conversar em practica chã, desenfadada e satisfeita, como é de uso de lavradores depois de uma feia acção, á sombra da copa da sua olaia, e, reclamando serviço por serviço, entrega a defeza das suas causas e cousas graves áquelles a quem deu saude e graça para correrem mundo. Habil piloto, deposita nas mãos dos remeiros, a quem alugou a barca de passagem, o fardo da sua dignidade, para lh'o levarem a porto de salvamento. Se o fardo chega avariado, como é mais que provavel, aos consignatarios da opinião publica—aqui d'el-rei—que foram elles que o deixaram ao tempo! e eil-o a chamar gallego a todo o mundo, inclusivamente ao mais honrado e independente caracter, que ainda houve nesta terra—o sr. A. Herculano! No entretanto a cigarra de Anacreonte vae cantando sobre a copa da proverbial olaia: e o Saturno portuguez, tomando{13} á sombra d'ella o café confortador, para mais facil digestão dos tenros cordeirinhos que a cigarra tosquiou, e elle comeu para ficar sosinho no seculo actual como agente, e os bôlos litterarios nacionaes como pacientes.

Isto sim, que é obra prima, accrescentaria eu, da mais fina methaphysica; isto sim, que é a expressão do mais puro ideal de refinada pouca-vergonha! É verdade que não aproveita a ninguem, nem á humanidade actual, nem ás futuras, nem a coevos, nem a vindouros, nem á Allemanha, nem á França, nem a Turim, nem ao Porto, nem a Lisboa, nem á infame eschola litteraria de Coimbra, que fazem escala por caminhos de honra e honestidade, mas aproveita-lhe a elle, ao seu orgulho feroz, mas ás suas entranhas insaciaveis de tudo, como de gloria, mas ao seu velho odio sem treguas, sem clemencia, sem repouso, mas á sua suprema soberba e á sua infinita vaidade.

Elle, o mestre; elle, o poeta da arte; elle, o sabio; elle, a intelligencia, que com mais felicidade e facilidade tem sabido assoalhar as abundantes e abençoadas sementes, que por ahi estavam por celleiros classicos a apodrecer na humidade e no abandono; elle, a mais esplendida e luxuriosa fórma que tem vestido lettras portuguezas; elle, o privilegiado do genio; elle, o que devia em fogo inextinguivel de amor e honestidade alimentar os primeiros attributos da divindade, que allumiam o destino de cada homem, e de cada sociedade; elle, que devia, e como poucos podia, bafejar todas as vocações; acompanhar com respeito, com veneração, com dulcidão d'alma, com candor de coração, toda a eschola nascente, toda a ideia nova e original, ao menos nesta terra; toda a utopia, amiga do bom, do util, do social; todo o esforço dos limpos de coração, para tornar a humanidade mais ideia, menos argilla; mais absoluto, menos relativo; mais bem, menos miseria; mais virtude, menos abjecção; mais amor, menos calculo; mais elevação moral, menos torpeza; mais religião, menos descrença; mais perdão, menos vindicta; mais caridade, menos odio; elle, que devia esmagar nos abysmos do coração, com a mão firme da vontade, os seus resentimentos particulares, e as reclamações exaggeradas da aspiração da gloria; domar pela sagacidade o que em todo o homem existe de fera humana, cicatrisar pela braza viva do{14} seu talento de fogo a ferida do seu peccado original, enfrear o sentimento da paixão individual, pela superior consideração dos interesses sociaes de qualquer ordem; este homem, que devia comprehender que todos os da sua esphera já hoje não podem nascer, sem perigo de damnação social, para se consumirem no sentimento mesquinho do egoismo e interesse proprios, senão sim para allumiarem, como o sol, que não cuida de si, do nascimento ao occaso um hemispherio da sociedade, do occaso ao nascimento os antipodas do progresso; elle, Castilho, falsifica ignominiosamente a sua missão no seio da eschola liberal, dá cada dia um abraço angustioso na ambição, que o domina, attrela-se ao carro da inveja insidiosa, julga ainda pequenas as lettras de luz do seu nome, que ninguem já póde apagar-lhe nas memorias do porvir, e chafurda-se como a serpente do Eden na tremedal da hypocrisia astuta, offerecendo com palavras ensopadas em ambrosia e nectar o pomo enganador aos Evangelistas da Divina palavra, que hão-de levar com os seus o nome do Verbo aos quatro cantos do universo e ás christandades por-vir.

A mim rasgava-se-me o coração se tivesse dito tudo isto, convencido de um erro; se a aragem da madrugada do dia 20 de novembro de 1865, impregnada do espirito invisivel da verdade, desdobrando aquella primeira folha da traducção de Ovidio, me não viera evidenciar, que o nome de um christão póde egualar o de um pagão, por consentimento tacito do segundo, e acceitação expressa do primeiro.