Mas então a que vim eu?—perguntarás tu, Theophylo Braga, Vieira de Castro.
A dizer-vos, que Anthero do Quental póde e deve confessar que não teria publicado a pagina decima primeira da sua Carta, se ao concluil-a abrisse, por desenfado, o Camões de Antonio Feliciano de Castilho, e o gostasse com todos os cinco sentidos; se, virgulando o que escrevera, houvesse tempo para ter em mór valia e consideração o seu bom-senso e bom-gosto, que os seus, aliás justos, resentimentos: não a agradecer-vos o delicado favor da vossa amisade, que não vem para aqui, ou a absolver-vos de peccados, que todos commettemos mais ou menos, mas a descarregar a minha consciencia de um pêso que de ha muito a mortificava; a asseverar-vos finalmente que, digam o que disserem os Sanctos{15} Padres, que venero; os canones dos Concilios, que leio; os decretos e bullas dos pontifices, que em conta de boas bullas terei sempre; chovam raios e coriscos sobre a triste humanidade; rasgue-se o véu do templo; sôe embora a trombeta do Juizo Final; resuscitem as provas de agua e fogo; até morrer, e ainda mesmo a morrer hei-de exclamar pelas mil boccas da minha fera vontade:
É o sol que está parado, é a terra que se move.
Dito isto, vou ler pela centesima vez a lei de 18 de agosto de 1769, a lei da Boa-razão. É fastidiosa, detestavel, pessima para uns certos, que se acoitam á sombra da arvore do bem e do mal a ruminarem torpezas é iniquidades; uberrima, recreativa, bonissima para outros que, quando menos, têm o bom-senso e o bom-gosto de a lerem, e comprehenderem.
No sentido que deixo dito
Vosso
Elmano da Cunha.