—Não, senhor, não deve contar o domingo.
—Já principiamos com exquisitices, não é verdade? Não seja doido nem fanatico. Essas preocupações significam o retrocesso de oitenta anos.
—Será o que quizer, porém Deus é mais antigo do que o senhor; portanto, entre Ele, que me manda não trabalhar, e o senhor, que manda que eu trabalhe, devo obedecer antes a Ele do que ao senhor.
—Porém, não conhece que Deus não se intromete nessas coisas? Que lhe importa a Deus que vocemecê trabalhe ou não? Não faça mal a ninguem, que trabalhar não é pecado, não é verdade, sr. padre Francisco?
—Deus quer—respondeu o padre Francisco—que se santifiquem os dias de festa. No domingo e mais dias preceituados pela egreja deve-se ouvir missa... depois... se é preciso trabalhar, pode-se fazer mediante licença. Julião, porém, como é protestante...
—Quê! vocemecê é protestante?—exclamou o freguez.
—Sou cristão evangelico—respondeu Julião.
—Pois, mestre, assim não está bem. Não vê que todos os freguezes o vão deixar? Protestante é a coisa peor que pode haver! porque é não ser hespanhol.
—O que é ser protestante—exclamou Julião, já um pouco exaltado—é ser mais hespanhol do que muitos; protestante é ser bom filho, bom pae, bom esposo, bom amigo e um bom crente em Jesus. Os catolicos romanos desprezam os mandamentos de Deus e submetem-se ao capricho dos homens; chamam doidos e fanaticos áqueles que os guardam, taes quaes se encontram na Biblia, e crêem em milagres, em bulas, em reliquias, em infernos com caldeiras de pez, em diabos grandes e diabos pequenos, em serpentes que se enroscam, em um purgatorio de que Jesus não teve a menor noticia, em um limbo, em bulas a gosto do comprador... em tudo, menos em Jesus e no Evangelho.
—Julião, Julião—disse o sacerdote,—não fale de tal modo, porque não faz mais do que dizer blasfemias.