A desgraça pairava sobre a casa de Julião.

Em pouco tempo aquela casa, antes tão feliz, veiu a ser a casa da dôr e da aflição. Já se não ouvia na loja o bater do martelo nem as alegres canções dos operarios.

Por todas as partes se havia espalhado a noticia de que o vidraceiro era protestante, e, por consequencia, o descredito foi geral.

Em vão Julião sofria tudo com paciencia; em vão visitava os seus antigos freguezes; em vão, na aparencia, clamava ao Senhor: parecia que o céu e a terra o haviam abandonado.

Para maior desgraça, sua esposa, torturada pelos sofrimentos, tinha decaido da fé, e isto era o que mais o atormentava.

Até o seu proprio amigo, o mestre João, que era o unico que poderia ajudal-o, estava fóra de Madrid, ocupado numas obras; tudo, pois, como já dissemos, se pronunciava contra ele.

Assim chegou o dia em que Julião teve de deixar a loja da casa que habitava, indo alugar a agua-furtada da mesma, para onde foi trabalhar como simples oficial.

Faltavam tres dias para fazer a mudança. Julião não estava em casa, e Dôres estava só, dando o peito a seu filho, quando sentiu abrir a porta da loja.

Levantou-se para ver quem entrava, e dirigindo-se á porta deu de rosto com o padre Francisco, que, depois de a cumprimentar, lhe disse: