—Julião está em casa?
Sabido é que Dôres olhava desde ha muito com certa desconfiança para o padre, pois que julgava que ele era o causador das suas desgraças, e assim é que com grande reserva e muito secamente lhe respondeu:
—Não, senhor; saiu.
O padre compreendeu o que se passava no espirito daquela mulher, e num momento concebeu o seu plano.
—Pois realmente sinto-o—disse o sacerdote,—pois que vinha falar com ele, afim de ver se queria encarregar-se duma obra.
—Pois não posso dizer-lho, porém parece-me que actualmente lhe será dificil, pois que não temos os meios necessarios para comprar os materiaes.
—Não importa isso; se seu marido quizer, os donos da obra lhe adeantarão tudo o que seja preciso. Porém, estranho vê-los nesse estado, sem terem nada que fazer, quando tinham tão boa freguezia!...
—Pois olhe—disse Dôres com intenção,—alguem tem a culpa disto.
—Não me parece que alguem possa ter culpa, ou se compraza com os males que sofrem. O unico culpado de tudo isso é o seu esposo, por causa dessas idéas que tem e que tão desprezadas são de todos. Se seu marido não tivesse a insensatez de se fazer protestante... Ora veja lá, protestante... uma coisa que não tem razão de ser... que acabará em breve e que... finalmente... consta lhes que muitos clerigos tenham passado para essa seita?