—Pois então eu lhe asseguro que toda a visinhança o saberá.

Em poucos momentos, todos os moradores da casa sabiam que Julião ia dar reuniões protestantes, e todos se dispozeram a ir ouvil-o, uns por curiosidade e outros por zombaria.

Quando o padre Francisco soube isto, exclamou:

—Já começa! e eu que julgava que esse homem cederia á fome e á miseria! Na minha vida não tenho visto pessoa mais teimosa! Que fazer? Ah! se se promovesse um escandalo, podia suceder que o senhorio os despedisse da casa; e o escandalo, sim, ha de dar-se. Parece mentira que os homens se obcequem a este ponto... No emtanto, isto faz-me supôr que Julião recebe alguma paga.

Assim continuou o padre, falando comsigo.

Por fim veiu a noite, e, ainda que alguma coisa fria por ser outono, a gente apinha-se nos corredores, por não caberem todos os que haviam concorrido dentro do quarto.

Ás oito horas em ponto da noite, Julião entrou no quarto, saudando todas as pessoas.

Depois dirigiu-lhes a palavra da seguinte maneira:

—Amigos, bastante embaraçosa é para mim a situação em que me encontro ao dirigir-vos a palavra. Falo-vos por duas razões: a primeira porque a isso Deus me envia, para que vos anuncie as novas de salvação que se encontra em Jesus Cristo; a segunda, a menos importante, para me justificar do que dizem, pois que, na opinião de muitos, duvida-se do meu caracter e da minha honra. Parece que muitos dos que estão presentes estranharão que um protestante vá falar do cristianismo, quando, segundo dizem por ahi, nós os protestantes somos uns herejes, uns incredulos, que duvidam de tudo. Se isto é ou não verdade, ides vós julgal-o ouvindo dos meus labios a minha profissão de fé, na qual eu, bem como todos os cristãos evangelicos, a quem vós chamaes protestantes, cremos. Para que bem o compreendaes, escutae com atenção.