—Sim, meus amigos—prosseguiu Julião,—dos protestantes dizem-se muitas coisas que assim não são.
«Nós, os protestantes, cremos na Virgem dos Evangelhos, mas não na Virgem da egreja romana, porque a Virgem desta egreja em nada se parece com aquela. Não lhe rezamos por duas razões: a primeira porque não sabemos rezar; sabemos sim orar a Deus; e a segunda porque nem os apostolos, nem as tres Marias, nem nenhuma das personagens do seu tempo o fizeram. E que diremos ácerca das bulas? As bulas! Famosa chave romana que abre e fecha as portas do céu, desde o minimo preço de dois reales[3] até somas um tanto consideraveis. Roma tem bulas para todos, já vêdes—acrescentou em tom ironico.—Roma tem bulas até para defuntos. Emfim, Roma não perde ocasião de tirar dinheiro. Desde que uma pessoa nasce até que morre, paga dinheiro e mais dinheiro para os cofres da egreja. Dinheiro para baptizar, dinheiro para casar, dinheiro para enterrar, dinheiro para missas, dinheiro para tudo. Ah! os sacerdotes desta egreja não teem em conta que S. Paulo vivia á custa do trabalho de suas mãos, e que nem S. Pedro nem os demais apostolos foram subvencionados pelo Estado: não tiveram pé de altar, nem direitos paroquiaes, nem casulas batidas a oiro, nem calices de prata, nem baculos do mesmo metal, nem tiara, nem mitra, nem chapéu cardinalicio, nem foram abades, nem conegos... Porém, se não tinham nada disto, em troca recebiam, para administral-o, o dinheiro dos ricos, e com isso a egreja vivia com algum desafogo. Este era o costume apostolico, e por ser este costume que nós defendemos acusam-nos de herejes e nos excomungam, e não fazem mais porque Deus não lhes permite. Meus amigos, já vos são conhecidas em parte as doutrinas dos cristãos evangelicos; agora julgae por vós mesmos. Ámanhã á mesma hora de hoje, se vos dignardes vós escutar-me, falaremos dalgum ponto do Evangelho; porém, antes de vos retirardes, sabei duas coisas: primeira, que «de tal maneira Deus amou o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigenito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (S. João 3: 16). A segunda é que «nenhuma condenação ha para os que estão em Cristo Jesus» (Rom. 8: 1). Que o Senhor nos abençôe. Amen.
Julião retirou-se para a alcova, e a gente tambem saiu, discutindo entre si; alguns foram felicital-o.
O padre Francisco, que havia estado observando tudo, dizia a sós comsigo:
—E não houve escandalo! E esse homem que vae convencel-os! Como evitar isso?
O bom do padre trazia a cabeça numa braza viva, pensando como havia de inutilizar o seu inimigo, sem se lembrar de que era melhor tomar o parecer que o fariseu Gamaliel deu no conselho de Jerusalem, celebrado contra os apostolos, em que disse: «Não vos metaes com estes homens, e deixae-os; porque, se este conselho, ou esta obra, vem dos homens, ela se desvanecerá; porém, se vem de Deus, não a podereis desfazer, para que não pareça que até a Deus resistis» (Atos 5: 38-40).