—Julião, já te disse que não vendas a ferramenta; se ámanhã nos estabelecermos de novo, far-te-ha falta.

—Certamente, e não sei que estranho pressentimento me diz que tornaremos para a loja que deixámos.

—Muito me alegraria com isso—disse Dôres,—porque foi naquela casa que morreram os nossos paes. Sabes—acrescentou—que ámanhã tenho de ir ao Monte dos socorros empenhar alguns objetos.

—Ah! Dôres!—exclamou Julião—se tu tivesses fé! Dize: crês com todo o coração o que está escrito na palavra de Deus?

—Sim, Julião.

O vidraceiro pegou na Biblia, que estava em cima da meza, e disse:

—Dôres, não temos dinheiro para comprar pão ámanhã, e, se não vaes empenhar alguns objetos, nem mesmo umas tristes sopas podes dar ao nosso filho, não é verdade?

Estas palavras arrancaram silenciosas lagrimas dos olhos de Dôres, que apertou ao peito o filhinho, que ela beijou sofregamente, entretanto que a creancinha se sorria, indiferente aos pezares daquela que a estreitava em seu seio.

—Não chores—continuou Julião,—o Senhor mesmo nos ensinou a dizer: «Dá-nos o pão nosso de cada dia»; pois bem, vamos orar, pedindo-Lhe esse pão.

Julião abriu a Biblia no Evangelho de S. João, cap. 16, e leu os versiculos 23 e 25, dizendo: