—Este—exclamou furioso o padre Francisco—não é logar proprio para discutir. A casa é propriedade do senhorio, e não para que você venha com o seu palavriado escandalizar os visinhos com suas corrompidas doutrinas.

—Fóra! fóra o padre!—disse uma voz.

—Fóra?—repetiu o padre.—Ámanhã vou dar parte ao senhorio de tudo quanto aqui se está passando, e veremos se se lhes prohibe ou não amontoarem-se nas escadas e no corredor, interrompendo a passagem.

—Pois senhores—gritou um dos moradores—em minha casa, de ámanhã em deante, ha logar para nos reunirmos. Se o sr. Julião quizer, podem todos juntarem-se ali sem escrupulo, e assim deixaremos as escadas livres, para que o sr. padre Francisco possa descer e subir, sem que a sua sotaina se amarrote.

Todos os moradores aplaudiram, emquanto que o padre Francisco entrou em sua casa aceso em colera.

Julião concluiu o sermão, e, depois de ficar convencido de que na noite proxima se celebraria culto em casa do visinho, que a tinha oferecido, cada qual foi para sua casa, e meia hora depois o socego e silencio reinavam em todas as habitações.

Julião e sua esposa estavam sentados em casa, conversando.

—E que vaes fazer?—disse-lhe a esposa.

—Não sei—respondeu Julião,—não sei; todas as portas se fecham; hontem esperava trabalho, porém o mestre não ficou com a obra e não me pôde admitir. Bem sabe Deus, querida esposa, que sómente sinto isto por ti e por nosso filho. Os recursos esgotaram-se, e não vejo de pronto como poderemos obter remedio. Eu sei que «Deus providenciará», sim, indubitavelmente tem que o fazer. Fui vender a ferramenta, porém querem valer-se da ocasião, e por aquilo que me custou duas libras sómente me dão uma.